terça-feira, 16 de agosto de 2011

As Feitiçarias de Zos



*Artigo publicado primeiramente na revista The Cauldron Brasil, edição inverno de 2004

Feitiçaria e bruxaria são a descendência degenerada de tradições ocultas contemporâneas daquelas descritas no segundo capítulo. A concepção popular de bruxaria, formada pelas manifestações anti-cristãs que aconteceram na Idade Média, é tão distorcida e inadequada que tentar e interpretar os símbolos dos seus mistérios, pervertidos e adulterados como são, sem referências aos muito antigos sistemas dos quais derivam, é como tomar a ponta de um iceberg pela sua massa total.



Foi sugerido por algumas autoridades que as bruxas originais surgiram de uma raça de origem mongol da qual os lapões são os sobreviventes atuais. Isto pode ou não ser verdade, mas estes "mongóis" não eram humanos. Eles eram sobreviventes degenerados de uma fase pré-humana da história do nosso planeta, geralmente – embora erradamente – classificados como atlanteanos. A características que os distinguia de outros da sua raça era a habilidade de projetar a consciência em formas animais e o poder que possuíam de reificar formas-pensamento. Os bestiários de todas as raças da terra estão entulhados com os resultados das suas feitiçarias. 


Eles eram entidades não-humanas; isto quer dizer que eles eram anteriores à onda da vida humana neste planeta e seus poderes – que hoje pareceriam alienígenas – derivavam de dimensões extra-espaciais. Eles impregnaram a aura da terra com sementes mágicas das quais os fetos humanos finalmente foram gerados. 

Arthur Machen foi, talvez, o que chegou mais próximo deste assunto quando sugeriu que as fadas e o povo pequeno do folclore eram dispositivos dignos que ocultavam processos de feitiçaria não-humana repelentes à humanidade. (1)

(1) Veja The White People, The Shining Pyramid, e outras histórias. 

Este tema é freqüente em Machen. Os hediondos atavismos descritos por Lovecraft em muitas de suas histórias evocam com ainda mais força a atmosfera de horror e "mal" cósmico peculiares ao influxo de poderes extra-terrestres. 

Machen, Blackwood, Crowley, Lovecraft, Fortune e outros, freqüentemente usavam como tema dos seus escritos o influxo de poderes extra-terrestres que vêm moldando a história do nosso planeta desde o começo dos temas; ou melhor, desde que o tempo começou para nós, pois estamos por demais propensos a supor que fomos os primeiros aqui e que nós estamos sozinhos agora, enquanto que a maioria das antigas tradições ocultas afirmam que não somos nem os primeiros nem os únicos a povoar a terra; os Veneráveis Antigos e os Deuses Antigos encontram ecos nos mitos e lendas de todos todos os povos. 

Austin Spare dizia ter tido experiência direta com a existência de inteligências extra-terrestres e Crowley – como sua autobiografia torna abundantemente claro – devotou toda uma vida para provar que consciências extra-terrestres e superhumanas podem existir independentemente do organismo humano e que existem de fato. (2)

(2) Veja The Confessions, Moonchild, Magick Without Tears e outros trabalhos de Crowley. 

Como explicado em Images and Oracles of Austin Osman Spare, (3) Spare foi iniciado na corrente vital da antiga e criativa feitiçaria por uma mulher idosa chamada Paterson, que dizia descender de uma linha de bruxas de Salem. A formação do Culto do Zos e do Kia, por Spare, deve muito ao seu contato com a bruxa Paterson, que proviu o modelo para muitos dos seus desenhos e pinturas "sabbáticos". Muito do conhecimento oculto que ela lhe transmitiu está espalhado em dois de seus livros – O Livro dos Prazeres e Foco da Vida (5). 

Nos últimos anos de sua vida, ele incluiu pesquisas esotéricas posteriores em um grimório (6), que ele pretendia publicar como uma seqüencia dos seus outros dois livros. Embora a sua morte tenha impedido a sua publicação, os manuscritos ainda existem, e o conteúdo do grimório forma a base deste capítulo. 

(3) Frederick Muller, 1975. 

(4) `O corpo considerado como um todo eu chamo de Zos' (O Livro dos Prazeres, p.45). O Kia é o "Eu Atmosférico". O "Eu" e o "Olho", sendo intercambiáveis, todo o âmbito do simbolismo do `olho' – aos quais repetidas referências têm sido feitas – são aqui aplicáveis. (N.T.: Em inglês, a palavra "I", significando "Eu" e "Eye", significando "Olho" possuem pronúncias muito semelhantes.) 

(5) Primeiramente publicados em 1913 e 1921, respectivamente. Houve uma republicação recente de O Livro dos Prazeres, com uma introdução de Kenneth Grant (Montreal, 1975). 

(6) Este livro foi dividido em duas partes: O Livro da Palavra Viva de Zos e O Grimório Zoético de Zos; no presente capítulo refere-se ao livro simplesmente como o grimório. 

Spare concentrou o tema da sua doutrina na seguinte Afirmação do Credo de Zos vel Thanatos. 

Eu acredito na carte "como agora" e para sempre... pois eu sou a Luz, a Verdade, a Lei, o Caminho e ninguém chega a nada exceto através da sua carne. Não mostrei eu a vocês o caminho eclético entre êxtases?; aquele caminho precariamente funumbulatório... Mas vocês não tiveram coragem, estavam cansados e temerosos. ENTÃO, ACORDEM! Des-hipnotizem-se da pobre realidade em que acreditam e vivem. Pois a grande maré do meio-dia está aqui, o grande sino bateu... Deixe que outros esperem involuntariamente a imolação, a redenção forçada tão certa para tantos apóstatas da Vida. Agora, neste dia, eu lhes peço que busquem em suas memórias, pois grandes unidades estão por perto. O começo de toda a memória é a sua Alma. Vida é desejo, Morte é transformação... Eu sou a ressurreição... Eu, que transcendo êxtase por êxtase, meditando em Não Precisa Ser em Auto-Amor... 

Este credo, dado pelo dinamismo da vontade de Spare e sua grande habilidade como artista, criou um culto no plano astral que atraiu para si todos os elementos naturalmente orietados a ele. Ele se referia ao culto como Zos Kia Cultus e seus devotos diziam ter afinidade com os seguintes termos: 

Nosso Livro Sagrado: O Livro dos Prazeres. 
Nosso Caminho: O caminho eclético entre êxtases; o caminho precariamente funumbulatório. 
Nossa Deidade: A Mulher Predominante. 
(`E eu me perdi com ela, rumo ao caminho direto'.) 
Nosso Credo: A Carne Viva (Zos): (`Novamente eu digo: Este é o seu grande momento de realidade – a carne viva'). 





Nosso Sacramento: Os Sagrados Conceitos Entremundos. (N.T.: no original, a palavra usada é `inbetweenness', que não possui tradução. Usei o termo `entremundos', pois este, além de ser muito usado na feitiçaria, é o mais próximo em significado em português que encontrei para o termo em inglês). 
Nossa Palavra: Não Importa-Não Precisa Ser. 
Nosso Domicílio Eterno: O estado místico de Nem Isto-Nem Aquilo. 
O "Eu" Atmosférico (N.T.: o termo original para Nem Isto-Nem Aquilo, é Neither-Neither, um erro proposital de gramática – o correto seria Neither-Nor – que Spare usou para aproximar o conceito do seu culto ao conceito de Neti-Neti, presente no Jnana Yoga). 
Nossa Lei: Transgredir todas as Leis. 

O Zos e o Kia são representados pela Mão e pelo Olho, os instrumentos da sensação e da visão. Eles formam o fundamento da Nova Sexualidade, à qual Spare desenvolveu ao combiná-los para formar uma arte mágica – a arte da sensação visualizada, o `tornar-se um com toda sensação', e da transcendência das polaridades duais da existência pela aniquilação da identidade separada, através do mecanismo da Postura da Morte (7). Há muito tempo atrás, um poeta persa descreveu em poucas palavras o objetivo da Nova Sexualidade, de Spare. 

O reino do Eu e do Nós abandone e da aniquilação faça a sua casa. 

(7) Vide infra. 

A Nova Sexualidade, no sentido em que Spare a idealizou, é a sexualidade não das dualidades positivas, mas do Grande Vácuo, do Negativo, do Ain: O Olho do Potencial Infinito. A Nova Sexualidade é, simplesmente, a manifestação da não-manifestação, ou do Universo `B', como Bertiaux o chamaria, que é equivalente ao conceito de Nem Isto-Nem Aquilo, de Spare. O Universo `B' representa a diferença absoluta entre aquele mundo de `todos os outros' e tudo aquilo que pertença ao mundo conhecido, ou Universo `A'. O seu portal é Daath, cujo sentinela é o demônio Choronzon. Spare descreve este conceito como `o portal do entremundos'. Em termos de Voodoo, esta idéia está implícita nos ritos Petro com a sua ênfase nos espaços entre os pontos cardinais da bússola: os ritmos dos tambores que conjuram os loa de além do Véu e formula as leis da sua manifestação (8). O sistema de feitiçaria de Spare, conforme expresso no Zos Kia Cultus, continua na mesma linha não apenas que a tradição Petro do Voodoo, mas também que o Vama Marg do Tantra, com as suas oitos direções de espaço representados pelo Yantra da Deusa Negra, Kali: a Cruz dos Quatro Quadrantes adicionados dos conceitos entremundos que juntos compõem a cruz óctupla, o lótus de oito pétalas, um símbolo sintético da Deusa das Sete Estrelas mais o seu filho, Set ou Sirius (9). 

(8) Veja o capítulo anterior. 

(9) A significância do número oito como a altura, ou o Um final, está explicado em Aleister Crowley & the Hidden God. 

O mecanismo da Nova Sexualidade está baseado na dinâmica da Postura da Morte, uma fórmula desenvolvida por Spare para o propósito de reificar o potencial negativo em termos de poder positivo. No Antigo Egito, a múmia era o tipo desta fórmula e a simulação pelo Adepto do estado de morte (10) – na prática tântrica – envolve também a detenção total das funções psicossomáticas. A fórmula tem sido usada por Adeptos que não necessariamente trabalham com a fórmulae tântrica ou mágica, notavelmente pelo celebrado Rishi Advaíta Bhagavan Shri Ramana Maharshi de Tiruvannamalai, (11) que alcançou a Iluminação Suprema ao simular o processo da morte; e também pelo bengalês Vaishnavite, Thakur Haranath, que foi tomado como morto e preparado o enterro após um "transe de morte" que durou várias horas e do qual ele despertou com uma consciência totalmente nova, que transformou até a sua constituição física e sua aparência 

(12). É possível que Shri Meher baba, durante o período de amnésia que o afligiu na sua vida mais recente, também tenha vivenciado uma forma de morte do qual ele despertou com poder para iluminar outros e liderar um grande movimento em seu nome. 

(10) i.e. a assunção da `forma-divina' da morte. 

(11) Veja Arthur Osborne: Ramana Maharshi and the Pat of Self Knowledge, London, 1954. 

(12) Veja Shri Haranath: His Play and Precepts, Bombay, 1954. 

A teoria da Postura da Morte, primeiramente descrita em O Livro dos Prazeres, foi desenvolvida independentemente das experiências dos Mestres acima mencionados, sobre os quais nada tinha sido publicado em nenhuma língua européia até aquele tempo (13). 

(13) i.e. 1913. 

A mística rosacruciana do pastos que contém o cadáver de Christian Rosencreutz – dramatizada por MacGregor Mathers na cerimônia 5=6 da Golden Dawn – resume o mistério desta fórmula essencialmente egípcia do Osíris mumificado. Spare estava a par desta versão do Mistéro. Ele se tornou um membro da A.'.A.'., de Crowley, por um breve período, em 1910, e os rituais da Golden Dawn – publicados pouco depois em The Equinox(14) – podem ter estado disponíveis para ele. 

(14) O Ritual 5=6 foi publicado no Volume I, No.3, em 1910. 

Os conceitos de morte e sexualidade estão intimamente ligados. Saturno, morte, e Vênus, vida, são aspectos gêmeos da Deusa. Que eles são, em um sentido místico, uma só coisa é evidenciado pela natureza do ato sexual. A atividade dinâmica conectada com o impulso de saber, penetrar e iluminar culmina em uma quietude, um silêncio, uma cessação de todos os esforços, que se dissolvem na tranquilidade da negação total. A identidade destes conceitos está explícita na antiga equação chinesa 0=2, onde o nada simboliza o negativo, o potencial não-manifesto da criação e o dois representa as duas polaridades envolvidas na sua realização. A Deusa representa a fase negativa: o "Eu" atmosférico simbolizado pelo Olho que tudo vê com o seu simbolismo ligado ao ayin; (15) e os gêmeos – Set-Hórus – representam a fase do 2, ou a dualidade. As alternâncias destes dois terminais, ativo-passivo, são emanações positivas do Vácuo, i.e. a manifestação do Não-manifesto e a Mão é o símbolo desta dualidade criativa, manifestadora de poder. (16) 

(15) Veja o Capítulo 1. 

(16) Pela qabalah, Mão=Yod=10; Olho=Ayin=70. O total, 80=Pe (Boca), a Deusa, Útero ou Pronunciadora da Palavra. (N.T.: no original em inglês, Útero e Pronunciadora possuem grafias e pronúncias similares. Útero é Uterus e Pronunciadora é Utterer.) 

O símbolo supremo do Zos Kia Cultus, portanto, resume o símbolo da Mulher Escarlate e é uma reminiscência do Culto do Amor sob Vontade, de Crowley. A Mulher Escarlate personifica o Fogo da Serpente, controle do qual causa "mudanças de ocordo com a vontade". (17) O entusiasmo energizado da Vontade é a chave do Culto de Crowley e é análogo à técnica da obsessão magicamente induzida, a qual Spare usa para reificar o "sonho inerente". (18). 

(17) A definição de Crowley para magia(k). Veja Magick, p.131. 

(18) i.e. a Verdadeira Vontade. 

Um dos maiores magistas de nosso tempo – Salvador Dali – desenvolveu um sistema de reificação mágica mais ou menos ao mesmo tempo que Crowley e Spare estavam elaborando as suas doutrinas. O sistema de Dali de "atividade paranóica crítica" evoca ecos de atavismos ressurgentes que são refletidos no mundo concreto das imagens por um processo de obsessão similar àquele induzido pela Postura da Morte. 

O nascimento de Dali, em 1904 – a ano em que Crowley recebeu O Livro da Lei – torna-o, literalmente, uma criança do Novo Aeon; um dos primeiros! Seu gênio criativo indica a cada estágio do seu vôo o florescimento do germe essencial que o tornou uma personificação viva da consciência do Novo Aeon e do `Senhor' descrito em AL. 

Os objetos de Dali estão refletidos no fluido e na luminosidade sempre em mutação da Luz Astral. Eles se resolvem e se fundem continuamente no "próximo passo", (19) a próxima fase da consciência que se expande na imagem futura do Vir-a-ser. 

(19) Crowley definiu a Grande Obra em termos de um "Próximo Passo", implicando que a Grande Obra não é uma coisa remota e misteriora, inalcançável aos seres humanos, mas a realização do "aqui e agora" e a atenção à realidade imediata. Tanto Spare quanto Crowley desaprovaram veementemente os mentirosos que, assustados pela idéia do trabalho, olham para a "próxima vida" e o inatingível, ao invés de se apegar à realidade e à vida AGORA. `Oh, tagarelas, falastrões,.... aprendam primeiro o que é trabalho! e que a Grande Obra não está não distante" (O Livro das Mentiras, Capítulo 52). 

Spare já tinha sido bem sucedido em isolar e concentrar o desejo em um símbolo que se tornaria sensiente e, portanto, potencialmente criativo através da iluminação da vontade magnetizada. Dali, parece, levou o processo um passo além. A sua fórmula de "atividade paranóica crítica" é um desenvolvimento do conceito primal (africano) do fetiche e é instrutivo comparar a teoria da "sensação visualizada", de Spare, com a definição de pintar como uma "mão feita fotografia colorida da irracionalidade concreta", de Dali. A sensação é essencialmente irracional e a sua delineação em forma gráfica ("mão feita fotografia colorida") é idêntica ao método da "sensação visualizada". 

Estes magistas utilizaram personificações humanas de poder (shakti) que apareciam – normalmente – na forma feminina. Cada livro que Crowley escreveu tinha a sua shakti correspondente. The Rites of Eleusis (1910) foi provido de energia por Leila Waddell. O Book Four, Parts I & II (1913) vieram através de Soror Virakam (Mary d'Este). Liber Aleph-O Livro da Sabedoria ou da Tolice (1918) – foi inspirado por Soros Hilarion (Jane Foster). Seu grande trabalho, Magick in Theory and Practice, foi escrito principalmente em 1920, em Cefalu, aonde Alostral (Leah Hirsig) o supriu de ímpeto mágico; e assim por diante, até a interpretação do Novo Aeon do Tarot, com Frieda Harris, em 1944. A shakti de Dali – Gala – foi o canal pelo qual a corrente criativa inspiradora foi fixada ou visualizada em algumas das maiores pinturas que o mundo já viu. E, no caso de Austin Osman Spare, o Fogo da Serpente assumiu a forma da Senhora Paterson, uma bruxa confessa que personificava as feitiçarias de um culto tão antigo que já era velho na infância do Egito. 

O grimório de Spare é uma concentração de todo o corpo do seu trabalho. Ele resume, em certo sentido, tudo de valor mágico ou criativo que ele já pensou ou imaginou. Assim, se você possui uma pintura de Zos, e aquela pintura contém alguns dos seus feitiços sigilados, você possui todo o grimório e você está com uma grande change de ser sugado pelas vibrações do Zos Kia Cultus e harmonizado com elas. 

Um aspecto pouco conhecido de Spare, um aspecto que está ligado à sua amizade com Thomas Burke, (20) revela o fato de que uma curiosa sociedade oculta chinesa – conhecida como o Culto do Ku – floresceu em Londres, nos anos 20. Seu quartel-general pode ter sido localizado em Pequim, Spare não o disse e talvez não o soubesse; mas a sua filial em Londres não era em Limehouse, ao contrário do que já se disse, mas em Stockwell, não muito longe do studio que Spare dividia com um amigo. Uma sessão secreta do culto do Ku foi testemunhada por Spare, que parece ter sido o único europeu a já ter sido aceito no grupo. Ele parece ter sido, de fato, o único europeu além de Burke que já ouviu falar do Culto. A experiência de Spare é de interesse excepcional pelo motivo da íntima aproximação à forma de controle dos sonhos na qual ele foi iniciado muitos anos antes pela Bruxa Paterson. 

(20) 1886-1945. 

A palavra Ku tem vários significados em chinês, mas neste caso em particular ele denota uma forma peculiar de feitiçaria envolvendo elementos que Spare já tinha incorporado em sua concepção da Nova Sexualidade. Os Adeptos do Ku cultuavam uma deusa serpente na forma de uma mulher dedicada ao Culto. Durante um elaborado ritual, ela era possuída e o resultado disso era que ela projetava, ou emanava, múltiplas formas da deusa como sombras sensientes, dotadas com todos os encantos possuídos pela sua representante humana. Estas mulheres-sombras, impelidas por alguma sutil lei de atração, gravitavam até um ou outro devoto que se sentava em um estado de sonolência ao redor da sacerdotisa em transe. Então ocorria um congresso sexual com estas sombras e isto era o começo de uma forma sinistra de controle dos sonhos, envolvendo jornadas e encontros em regiões infernais. 

O Ku parece ter sido uma forma da Serpente de Fogo exteriorizada astralmente como uma mulher-sombra ou súccubus e o congresso com elas habilitava o devoto a reificar seu "sonho inerente". Ela era conhecida como a "prostituta do inferno" e a sua função era análoga àquela da Mulher Escarlate do Culto de Crowley, à da Suvasini do Círculo Tântrico Kaula e à da Fiandeira do Culto da Serpente Negra. O Ku chinês, ou prostituta do inferno, era uma personificação sombria dos desejos subconscientes (21) concentrados nas formas fascinantemente sensuais da Serpente da Deusa Sombria. 

(21) Inferno é o tipo de lugar oculto simbólico do subconsciente; a região "infernal". 

A mecânica do controle de sonhos é, de várias maneiras, similar àquelas que dão eficácia à projeção astral consciente. Meu próprio sistema de controle dos sonhos deriva de duas fontes: a fórmula de Lucidez Eroto-Comatose descoberta por Ida Nellidoff e adaptada por Crowley em suas técnicas de magia sexual, (22) e o sistema de Spare de Sigilos Sensientes, explicado abaixo. 




(22) Veja o Capítulo 10. 

O sono poderia ser precedido por alguma forma de Karezza (23), durante a qual um sigilo especialmente escolhido, simbolizando o objeto desejado, é vividamente visualizado. Desta maneira, a libido é desviada das suas fantasias naturais e busca satisfação no mundo dos sonhos. Quando se obtiver habilidade, o sonho se tornará extremamente intenso e dominado por uma sucubo, ou mulher-sombra, com quem um intercurso sexual ocorre espontaneamente. Se o sonhador tiver adquirido um grau moderado de proficiência nesta técnica, ele estará consciente da presença continuada do sigilo. Este sigilo ele deveria unir à forma da succubo, em um lugar que ficasse no seu campo de visão durante a cópula, isto é, como um pingente suspenso no seu pescoço; como um brinco; ou como um diadema em sua testa. O seu lugar deveria ser determinado pelo magista de acordo com a posição que ele usa durante o coito. O ato irá então assumir todas as características de um Trabalho de Nono Grau, (24) pois a presença da Mulher-Sombra será vivenciada com a intensidade vívida de uma sensação e clareza de visão. O sigilo então se torna sensiente e, no seu curso, o objeto do Trabalho se materializa no plano físico. Este objeto é, claramente, determinado pelo desejo personificado e representado pelo sigilo. 

(23) Vide, infra, p.204. 

(24) i.e. um trabalho de magia sexual com uma parceira. 

A importante inovação neste sistema de controle dos sonhos está na transferência do sigilo da vigília para o estado de sonho e na evocação, em um estágio posterior, da Mulher-Sombra. Este processo transforma um Rito de Oitavo Grau (25) em algo similar a um ato sexual como usado em Trabalhos de Nono Grau. 

(25) i.e. um ato sexual solitário. 

Resumidamente, a fórmula tem três estágios: 

1. Karezza, ou atividade sexual interrompida, com a visualização do sigilo até dormir. 
2. Congresso sexual em sonhos com a Mulher-Sombra evocada pelo Estágio 1. O sigilo deveria aparecer automaticamente neste segundo estágio; se não aparecer, a prática deve ser repetida outra vez. Se aparecer, então o resultado deseja será reificado no próximo estágio. 
3. Após acordar (i.e. no mundo ordinário dos fenômenos cotidianos). 

Uma palavra de explicação é, talvez, necessária a respeito do termo Karezza, conforme usado no contexto presente. Retenção de sêmen é um conceito de importância central em certas práticas tântricas, pois acredita-se que assim o bindu (semente) então é semeado astralmente, não fisicamente. Em outras palavras, um certo tipo de entidade é gerada nos níveis de consciência astrais. Esta, e técnicas análogas, deram surgimento à impressão – muito errada – de que o celibato é uma condição sine qua non ao sucesso mágico; mas o celibato é de um caráter puramente local e confinado ao plano físico, ou estado de vigília, apenas. Celibato, conforme entendido comumente, é portanto uma paródia sem sentido da verdadeira fórmula. Assim é o raciocínio de um celibato tântrico e tal interpretação sem dúvida alguma é aplicada também a outras formas da ascetismo religioso. 

As "tentações" dos santos ocorrem no plano astral precisamente porque os canais físicos estão deliberadamente bloqueados. O estado de sonolência notado nos adoradores do Ku sugere que os jogos resultantes com as sombras foram evocados de uma maneira similar àquela obtida por uma espécie de controle dos sonhos. 

Gerald Massey, Aleister Crowley, Austin Spare, Dion Fortune demonstraram – cada um à sua maneira – as bases bio-químicas dos Mistérios. Eles alcançaram a esfera do "oculto" que Wilhelm Reich alcançou pela psicologia e que estabeleceu em uma base claramente bio-química. 

Os "símbolos sensientes" e o "alfabeto dos desejos", de Spare, (26) correlatos como são aos marmas do corpo com os princípios sexuais, anteciparam de muitas maneiras o trabalho de Reich, que descobriu – ente 1936 e 1939 – o veículo da energia psico-sexual, a qual ele nomeou orgone. A contribuição singular de Reich à psicologia e, incidentalmente, ao ocultismo ocidental, encontra-se no fato de que ele isolou com sucesso a libido e demonstrou a sua existência como energia tangível, biológica. Esta energia, a verdadeira substância dos conceitos puramente hipotéticos de Freud – libido e id – foi mensurada por Reich, tirada da categoria de hipótese e reificada. Ele estava, entretanto, errado ao supor que o orgone era a energia final. 

Ela é um dos mais importantes kalas, mas não o Kala Supremo (Mahakala), embora possa tornar-se isto pela virtude de um processo que não é desconhecido aos tântricos do Varma Marg. Até tempos comparativamente recentes, era conhecido – no ocidente – dos alquimistas árabes (e todo o corpo da literatura alquímica, com sua terminologia tortuosa e seu estilo hieroglífico o revela – se é que revela alguma coisa) um artifício deliberado da parte dos Iniciados de velar o verdadeiro processo de distilar o Mahakala. 

(26) Descrito em O Livro dos Prazeres (A.O. Spare), republicado em 1975. 

A descoberta de Reich é significante, pois ele foi provavelmente o primeiro cientista a dar à psicologia uma base biológica sólida e o primeiro a demonstrar em condições de laboratório a existência de uma energia mágica tangível, finalmente mensurável e, portanto, estritamente científica. Quer esta energia seja denominada luz astral (Levi), élan vital (Bergson), Força Ódica (Reichenbach) ou libido (Freud), Reich foi o primeiro – com a possível exceção de Reichenbach (27) – a realmente isolá-la e demonstrar suas propriedades. 

(27) Veja Lettes on Od and Magnetism; Karl von Reichenbah, Londres, 1926. 

Austin Spare suspeitou, em 1913, que este tipo de energia era o fator básico na reativação dos atavismos primais, e ele os tratou como se fossem uma energia cósmica (o "Eu Atmosférico") responsável pela sugestão subconsciente por meio dos Símbolos Sensientes e através da aplicação do corpo (Zos) de tal forma que ele poderia reificar atavismos remotos e todas as possíveis formas futuras. 

Durante o tempo em que estava preocupado com estes temas, Spare sonhou repetidamente com construções fantásticas cujos alinhamentos ele descobriu ser impossível de lembrar ao acordar. Ele supôs que fossem pistas de uma futura geometria do espaço-tempo sem relação conhecida com as formas da arquitetura dos tempos presentes. Eliphaz Levi dizia ter um poder similar de reificar a "Luz Astral", mas ele falhou em mostrar o método preciso da sua manipulação. Foi para isto que Spare desenvolveu o Alfabeto do Desejo, "cada letra correspondendo a um princípio sexual". (28) Isto quer dizer que ele notou certas correspondências entre os movimentos internos do impulso sexual e a forma externa da sua manifestação em símbolos, sigilos ou letras tornados sencientes ao serem carregadas por esta energia. 

Dali refere-se a estas formas carregadas magicamente como "alojamento do desejo" (29) que eram visualizadas como vácuos sombrios e vazios negros, cada um tendo a forma de um objeto fantasmagórico que habita a sua latência e que É somente pela virtude do fato de que NÃO É. 

Isto indica que a origem da manifestação é a não-manifestação e isto é claro para a apreensão intuitiva de que o orgone de Reich, o "Eu" Atmosférico de Austin Spare, e as delineações dalinianas de "alojamentos do desejo" referem-se em cada caso a uma energia idêntica que se manifesta através dos mecanismos do desejo. Desejo, Vontade Energizada e Obsessão, são as chaves para a manifestação ilimitada, pois toda forma e todo poder é latente no Vácuo e a sua forma-divina é a Postura da Morte. 

(28) O Livro dos Prazeres, p.56. 
(29) Veja The Secret Life of Salvador Dali, New York, 1942. 

Estas teorias têm suas raízes em práticas muito antigas, algumas das quais – de uma forma distorcida – proviram as bases do Culto das Bruxas medieval, covens do qual floresceram na Nova Inglaterra na época dos Julgamentos das Bruxas de Salem no final do século 17. As perseguições subseqüentes aparentemente obliteraram todas as manifestações externas tanto do culto genuíno e das suas contrafações degradadas. 

Os símbolos principais do culto original podem ter sobrevivido pela passagem dos longos ciclos de tempo dos aeons. (30) Todos eles sugerem o Caminho Invertido: (31) O Sabbath sagrado a Sevekh ou Sebt, o número Sete, a Lua, o Gato, o Chacal, a Hiena, o Porco, a Cobra Negra e outros animais considerados impuros pelas tradições posteriores; a Dança de Costas e no sentido anti-horário, o Beijo Anal, o número Treze, a Bruxa montada em um cabo de vassoura, o Morcego e outras formas de criaturas noturnas fiandeiras ou aladas; a Batrachia geralmente, do qual o Sapo, a Rã ou Hekt (32) são preeminentes. Estes símbolos e similares originalmente caracterizavam a Tradição Draconiana que foi degradada por pseudo-cultos de bruxas durante os séculos de perseguição cristã. Os Mistérios foram profanados e os ritos sagrados foram condenados como anti-cristãos. 

Os cultos assim tornaram-se repositórios de ritos religiosos invertidos e pervertidos e símbolos sem significado interno; meras afirmações do total comprometimento das bruxas com doutrinas anti-cristãs, quando – originalmente – elas estavam vivendo emblemas e símbolos sensientes de uma fé pré-cristã. 

(30) Eles foram herdados das Tradições Draconianas e Typhoninas do Egito pré-dinástico. Veja O Renascer da Magia, Capítulo 3. 

(31) O Caminho dos Atavismos Ressurgentes. 

(32) Hécate, a bruxa ou transformadora das trevas em luz, como o girino das águas se transforma no sapo da terra seca, assim como a lua negra da bruxaria se transforma da brilhante orbe de radiância mágica e encantamento, exemplificado por Spare na "Bruxa" Paterson, que se transformou de megera em virgem diante dos seus olhos. Veja Images and Oracles of Austin Osman Spare, 1975. 

Quando o significado oculto dos símbolos primais é penetrado em um nível draconiano, o sistema de feitiçaria que Spare desenvolveu através do contato com a "Bruxa" Paterson torna-se explicável e todos os círculos mágicos, feitiçarias e cultos são vistos como manifestações da Sombra. 

Fonte: do livro Cults of the Shadow, de Kenneth Grant 
Tradução: Gabriel Mallet Meissner.
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