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segunda-feira, 11 de julho de 2011

MITOS E MITOLOGIA MITOLOGIA EGÍPCIA (Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding) ORIGEM E EVOLUÇÃO DAS INSTITUIÇÕES RELIGIOSAS NO EGITO

MITOS E MITOLOGIA
MITOLOGIA EGÍPCIA
(Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding)

ORIGEM E EVOLUÇÃO DAS INSTITUIÇÕES RELIGIOSAS NO EGITO

Afirmou Heródoto (11, 37), numa passagem célebre, que os egípcios eram os homens mais religiosos do mundo. O historia­dor grego tinha razão. Ainda hoje, o vale do Nilo é testemunho eloquente de que o Egipto, acima de tudo, se preocupava com seus deuses e com o culto dos mortos.
Até bem pouco tempo tínhamos ideias erróneas acerca de algumas divindades egípcias; as últimas escavações e descobertas esclareceram muitas dúvidas e rectificaram vários erros. Alguns fatos, porém, permanecem obscuros, e isto, em parte, se deve à natureza da mitologia egípcia. De fato, ainda que todos os habi­tantes do vale do Nilo obedecessem às mesmas concepções funda­mentais e tivessem uma certa unidade psicológica e religiosa, contudo, os teólogos egípcios jamais se preocuparam em agrupar as numerosas crenças locais que proliferavam ao longo do Nilo num sistema racional. Muito menos ainda cogitaram em elaborar um corpo de doutrinas destinado ao país todo. As concepções mitológicas variavam segundo os lugares e, em certa medida, conforme as épocas. Na realidade, a mitologia egípcia compõe-se de. várias mitologias locais. Contudo, nesse amálgama de crenças, existe um princípio de unidade e este se funda na organização unitária do culto rendido aos deuses locais.
Segundo os egípcios, o Faraó, na qualidade de filho dos deu­ses, era o encarregado de assegurar o culto regular e tradicional do país. Destarte, a religião egípcia se fundava não em dogmas que deviam ser obedecidos, mas num culto que se devia praticar. .! Nas mais remotas épocas - aceitam os egiptólogos - aquela região que mais tarde se chamaria Egipto, estava dividida em principados de absoluta autonomia, cada um sob a tutela de um deus particular. Foi nessas longínquas eras que se formaram os nume­rosos cultos locais que haveriam de permanecer, não obstante as convulsões sociais e políticas e as graves crises religiosas. As províncias ou nomes do Egipto faraónico guardarão mais tarde a lembrança desse antigo estado de coisas. Naquelas épocas recua­das, os deuses receberam a fisionomia particular que os egípcios nas Idades posteriores haveriam de conservar.
Alguns deuses, desde o início, receberam tipo humano. ~ o ca~?, por exemplo, de Min, deus de Capto, de Atu~, de Helió­rnoa~s, de Ftá (ou Ptá), de Menfis, de Osíns, Busíns e outros qu~f' Alguns se manifestavam sob forma de plantas, fetiches ou quer outro símbolo, como um pilar, obelisco etc. Em geral, porém, os deuses se mostravam sob forma de animais; o animal era considerado a alma (ba) do deus. Essa predileção pela zoola­tria, que tanto impressionou os gregos (povo por excelência antro­pomorfista) é explicada de diversas maneiras pelos etnólogos. Os gregos a justificaram com grande simplicidade: Quando foi da guerra dos Gigantes contra os deuses do Olimpo, estes, atemo­rizados, esconderam-se no Egipto, onde assumiram a foma de animais, a fim de fugir à sanha dos temíveis inimigos.
Sem dúvida a zoolatria corresponde a concepções primitivas assaz difundidas entre os povos mais antigos; no começo Os ani­mais eram temidos por causa da ferocidade ou dos danos que ocasionavam, ou amados em virtude de qualidades extremamente úteis ao homem; esses sentimentos de respeitoso temor e de gratidão trouxeram como conclusão prática a veneração. Anúbis, antigo deus funerário, era representado como um canídeo; Sobec, deus especialmente venerado em Faium, como crocodilo, Horo, o deus do céu, como falcão, Tot, deus lunar e patrono da Escrita e da Ciência, ora era figurado como Um íbis de longo bico ora como um cinocéfalo; Hator, uma das principais personagens do panteão egípcio, assumia a forma da vaca; Bastet ou Ubastet, a do gato. É lícito, pois, afirmar-se que, ao menos ocasionalmente, a maior parte dos deuses teve seu equivalente teromórfico. Aliás, essa manifestação zoomorfa não permaneceu puramente teórica; é provável que os egípcios das idades mais recuadas con­servassem um espécime de cada variedade animal, considerada como sagrada, em reclusão, como as serpentes, por exemplo, que se criavam no templo de Esculápio em Epidauro. Esse costume explicaria a existência de necrópoles de crocodilos, de gatos e de bois. Sabemos, outrossim, que em Mênfis, Heliópolis e Her­môntis, numa das dependências do templo criava-se o touro sa­grado, "a alma viva" do deus local. As escavações revelaram que no Serapeu de Mênfis alinhavam-se, ao longo de profundas gale­rias, os sarcófagos dos Apis, sepultados com honras divinas, dos quais os mais antigos remontam à XIX dinastia.
Por outro lado, é certo que muito cedo os egípcios começaram a antropomorfizar seus deuses, dando-lhes comportamento e personalidade humanos. Mais comumente adoptaram forma hí­brida: Os deuses passaram a ser representados com corpo huma­no e cabeça de animal.
As divindades egípcias habitavam suntuosos templos, como os reis os palácios; daí a característica especial desses gigantescos templos, com dependências, oficinas, jardins etc. No santuário propriamente dito, ficava o deus, realmente presente sob a forma de um ídolo. O deus era tratado como personagem de elevada posição social, como um rei ou príncipe. Diariamente executa­vam-se os ritos solenes: Purificações, oferendas, recitação de fór­mulas e de hinos etc., Nos dias festivos os ritos diários compor­iavam cerimónias mais solenes e a liturgia salientava o carácter particular da festividade. Havia, às vezes, procissões. Os sacer­dotes transportavam a imagem do deus, das capelas (naos) para as praças públicas, através das principais ruas da cidade; havia, então, festejos e grande regozijo popular.
Segundo as concepções egípcias, o rei era o sacerdote por excelência, ou melhor, o executor nato dos ritos religiosos, já que ele mesmo era de essência quase divina. Inúmeros relevos descobertos no curso das escavações representam o rei no exercício das sagradas funções de oferecer sacrifícios ou oferendas aos deuses. Acreditam os .egiptólogos, contudo, que o rei delegava seus poderes ao sumo-sacerdote de cada templo, o qual tinha sob suas ordens um clero regular. A hierarquia sacerdotal, perfeita­mente organizada, parece que tomou verdadeiro incremento no curso do Novo Império.
O rei era o protector natural dos templos. Ele os edificava, restaurava, embelezava e assegurava aos erários sagrados gene­rosas oferendas. O templo do deus tutelar da dinastia era sem­pre o mais rico e mais sumptuoso.

MITOS E MITOLOGIA MITOLOGIA EGÍPCIA (Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding) FAMÍLIAS DIVINAS – MITOS

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MITOLOGIA EGÍPCIA
(Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding)

FAMÍLIAS DIVINAS – MITOS

Cada deus local era concebido como o criador do mundo. Seu nascimento situava-se no começo dos tempos; tentavam, des­tarte, não somente explicar a cosmogonia mas também o papel principal do deus. Ao lado deste, principal, evolviam outras divindades secundárias, que, ocasionalmente, poderiam também se tomar principais; criava-se, então, a família divina, ou mais exactamente, o cortejo ou a corte divina, cujos membros inter­feriam na Criação e na organização do Mundo.
Essas famílias divinas correspondiam aos agrupamentos so­ciais mais simples: O deus pai, a deusa mãe e o deus filho. É a triade.
A triade de Mênfis compreendia Ftá, o deus principal, Secmet, ,a deusa com cabeça de leoa e Nefértum o jovem deus que trazia na cabeça a flor de lótus.
A tríade tebana, por sua vez, compunha-se de Amon, Mut e o filho, Conso.
Antes de expor os principais mitos egípcios, é conveniente assinalar que raramente eles nos foram transmitidos sob forma completa e coerente; para reconstituí-los se faz mister recolher nos textos religiosos e mágicos alusões que nos permitam com­preender não somente a génese do mito mas também sua evolu­ção e implicação em outros mitos. Estes, como todas as narrati­vas orais, sofrem mutações no decorrer das gerações; alguns tra­ços, logo se percebe, datam da sua composição primitiva; outros, porém.. parecem ter sido tirados de mitos vizinhos ou mesmo inteiramente diferentes.
Entre as lendas do Egipto antigo, inúmeras assumiram signi­ficação de verdadeiros sistemas cosmogónicos e teológicos; goza­ram de grande popularidade esses sistemas e os deuses que neles representavam os principais papéis logo se tomaram famosos e granjearam grande prestígio.
Um deus pode dever sua popularidade e seu prestígio à essên­cia mesma do princípio que representa. É o caso, em particular, das divindades cósmicas. Entre todos os povos politeístas, o Sol desempenhou, sempre, um papel importante, se não o mais impor­tante, por causa da sua própria natureza de astro do dia, vivifi­cador e alimentador da Vida.
Mas a popularidade de uma divindade poderá, também, re­sultar de acções benfazejas em relação ao homem. Assim, todos os deuses da Fecundidade, que são, ao mesmo tempo, deuses agrários e deusas-mães, gozaram de excepcional favor popular. Outras divindades, por sua vez, devem seu prestígio a acon­tecimentos políticos. No Egipto, onde a realeza sempre foi a base da estrutura social, política e religiosa do país, o deus da Resi­dência tornou-se de imediato o deus dinástico e teve oportuni­dade de ocupar a primeira plana na hierarquia divina. Daí a observação de Drioton: "O deus do rei tem a tendência de se tornar o rei dos deuses".
Destarte Ftá (ou Ptá), honrado em Menfis, tornou-se deus importante sob o Antigo Império e, mais tarde, quando a capital se transferiu para Tebas, Amon elevou-se ao grau de rei dos deuses.

MITOS E MITOLOGIA MITOLOGIA EGÍPCIA (Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding) O SISTEMA HELIOPOLITANO

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MITOLOGIA EGÍPCIA
(Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding)

O SISTEMA HELIOPOLITANO

A cidade de Heliópolis ("Cidade de Hélios", isto é, o Sol) situa-se não longe da ponta do Delta, ao nordeste do Cairo, perto do deserto. Seu nome egípcio era On. Muito cedo tornou-se importante centro religioso. Nessa cidade, em época difícil de ser precisada, mas que sem dúvida deve ser anterior à da III dinastia, desenvolveu-se um sistema teológico no qual o deus local, Atum, desempenhou papel primordial.
Conforme esse sistema, existia, na origem, o oceano ou mag­ma informe, a água primordial, o caos chamado Nun. Nesse caos, desde toda a eternidade, existia um princípio consciente, o deus Atum, palavra que significa "o Completo" ou "o Total". Desse deus ia nascer uma linhagem divina, da qual cada geração representaria um aspecto ou um elemento do Universo. Atum recebeu a vida da sua própria essência e não recebeu nada de ninguém; é fecundo por si só e capaz de engendrar todos os seres. Suscitou, sem a interferência de elemento feminino, o sémen do qual nasceu o primeiro par divino, Shu e Tefnut. Shu personi­fica o ar, o vazio, mas, por outra parte, o ar vital, enquanto sua companheira, Tefnut, parece representar a humidade que existe na atmosfera. Desse primeiro par nasce outro, Gebeb, o deus­-Terra, e Nut, a deusa-Céu. De passagem assinalemos que os egípcios fazem da Terra um princípio masculino e do céu um princípio feminino. De Gebeb e de Nut nasceram dois pares, Osíris-Isis e Set-Néftis, deuses complementares, ainda que em parte antagónicos; parece que representam a passagem da ordem cosmológica para a ordem terrestre. Os deuses que figuram nesse sistema são nove e daí provém o nome enéade (pes~dlet).
O sistema da enéade heliopolitana, invenção pueril dos teó­logos a fim de explicarem a origem do mundo, gozou de tal pres­tígio que, mais tarde, foi introduzida artificialmente em outros centros de culto. Para o adaptar às condições locais, foi suficiente assimilar Atum, o chefe da linhagem, ao deus principal do lugar. Assim, sem dúvida, se apresentava a doutrina da enéade na sua origem. Mas, tão alto quanto nos permitem os textos remontar, encontramos o sistema heliopolitano transformado e enriquecido com novos elementos de origem solar. Bem cedo Atum se asso­ciou, ao menos em parte, ao deus cósmico Ré (ou Rá), cujo nome significa simplesmente o Sol; associou-se, igualmente, ao deus­-falcão Horo sob a forma de Haracti, "Horo do Horizonte".
Horo é uma das figuras mais notáveis do panteão egípcio. Como deus solar e celeste, seu papel cósmico revelou-se muito cedo. Impressionados pelo voo poderoso do falcão, os habitantes do vale do Nilo viram em Horo o deus que personifica o Céu e conceberam a ave como o sol da manhã e o sol da tarde, ou, conforme explicação mais tardia, como o Sol e a Lua.
Habituados a viajar no Nilo, imaginavam o Sol numa barca, de dia atravessando gloriosamente o oceano celeste, de noite vo­gando em rio desconhecido e misterioso, visitando o Reino dos Mortos, o qual ele alegrava e reanimava com a sua divina pre­sença, voltando logo em seguida para o Oriente, para o lugar de onde deveria renascer para o mundo superior. Havia, portanto, uma barca do dia (mandjet), outra da noite (mesektet).
Outra concepção afirmava que o Sol, no termo da sua car­reira, cada dia, era engolido pela deusa do Céu, Nut, para ser gerado novamente durante a noite e renascer às primeiras horas da manhã.
Outras formas ainda havia para identificar o deus solar; uma das mais. sugestivas é o escaravelho ou escarabeu. Supõe-se que a ligação entre o coleóptero e o sol repousa numa confusão de palavras; o termo que designa o escarabeu, khoprer, é homófono do verbo khoper, que significa "tornar-se", "transformar-se". Parece que os egipcios observaram o facto de o escarabeu encerrar seu ovo numa bola de esterco e rolá-la diante dele. Viram, nesse proceder, uma imagem das transformações que o sol diariamente sofre. Fazendo alusão às diferentes fases do astro do dia, um hino invoca o sol da manhã como Quépri (o Sol Que Se Manifesta Sob Forma Renascente), o sol do meio-dia como Ré (Astro Culmi­nante), e o sol da tarde como Atum (O Sol Que Acaba Sua Carreira).
O deus solar estava também em íntima relação com certos emblemas que o caracterizavam, dos quais o mais expressivo é o obelisco, grande agulha de pedra na qual alguns quiseram ver a forma estilizada da pedra erguida (designada como o benben de Heliópolis), mas que foi também interpretada como a imagem solidificada de um raio solar.
A doutrina heliopolitana exerceu grande influência no curso do Antigo Império.
Sob a V dinastia seu prestígio cresceu; parece que os reis dessa dinastia eram de Heliópolis e manifestavam particular veneração pelos deuses daquela cidade. Construíram, nas proximidades das suas pirâmides, templos solares, réplicas reduzidas do gri;1nde santuário heliopolitano. O deus aí era ado­rado sob a forma de um obelisco de imponentes dimensões, que se erguia no meio de vasta esplanada.

MITOS E MITOLOGIA MITOLOGIA EGÍPCIA (Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding) O SISTEMA HERMOPOLITANO

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MITOLOGIA EGÍPCIA
(Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding)

O SISTEMA HERMOPOLITANO

Hermópolis ("Cidade de Hermes", isto é, Mercúrio) era uma cidade do Egito Médio, distante cerca de 300 km ao S. do Cairo, perto da margem esquerda do Nilo; tem, hoje, o nome de Achm'unein.
Nessa cidade, nasceu um sistema original, em épocas bas­tante recuadas; os Textos das pirâmides mais de uma vez aludem a esse sistema. Notemos, entretanto, que a maior parte dos textos que nos esclarecem a respeito do sistema hermopolitano são de época na qual a doutrina primitiva já estava eivada de elementos alienígenas.
O sistema hermopolitano se caracteriza de imediato pelo aspecto abstracto. A cosmogonia heliopolitana pode ser relatada como uma história, como uma série de eventos ou episódios que mostram a formação progressiva do Universo. O sistema hermo­politano apresenta uma teoria de quatro elementos, que são ou aspectos ou atributos do Caos. Sobre o montículo que emerge das Aguas Primordiais, e que os textos designam como a "Ilha da Chama", apareceram simultaneamente quatro deuses, acompa­nhado cada um de companheira feminina.
Na ordem canônica são: O Oceano Primordial, o Incomensurável, cuja missão é elevar o Sol (Heh e Hehet), a Obscuridade, que produz as trevas da Noite, na qual desabrochará a luz (Kek e Keket) e por fim o Mis­tério, o Oculto (Amon e Amaunet), chamado, também, o Nada (Niu e Niut), no qual se reconhece o sopro invisível mas activo do ar carregado de força vital.
Esses elementos suscitam, combinados entre eles, a existên­cia do astro do dia. Elevam o Sol ao Céu, a fim de que ele, por sua vez, faça viver todos os seres do Universo.
Os quatro deuses elementares, com suas respectivas compa­nheiras, formam a Ogdoade ou colégio de oito deuses; os deuses machos são representados com cabeças de rãs, alusão à crença que diz nascerem as rãs, espontaneamente, da lama; as deusas têm cabeça de serpente, ser que tem afinidade com as profun­dezas da terra.
Por causa desse sistema, Hermópolis tinha o nome egípcio de Khmun, “A (cidade) dos Oito".
Ainda em Hermópolis surgiu um mito segundo o qual o Sol desabrochara sobre uma flor de loto que emergira das águas do Oceano. Esse mito gozou de grande popularidade através de todo o Egipto. Nós o reencontraremos na mitologia menfita, que dá ao deus assim nascido o nome de Néfer- Tum.

MITOS E MITOLOGIA MITOLOGIA EGÍPCIA (Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding) O SISTEMA MENFITA

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MITOLOGIA EGÍPCIA
(Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding)

O SISTEMA MENFITA

Menfis é cidade muito antiga.
A este, o Nilo corre contra a montanha, a oeste, um grande braço d'água costeia o platô; entre os dois, estende-se ampla planície na qual se passa insensivelmente do Alto para o Baixo Egipto.
Por volta do ano 3000 a.C., perto de um burgo onde Ptá era adorado, Menes construiu 6 forte do Muro Branco, contro­lando, destarte, "a vida das Duas Terras". Menófer tornou-se Menfis na boca dos gregos.
O sistema criado em Menfis tem raízes políticas. Foi elabo­rado, provavelmente, no momento em que a cidade residencial se desenvolvia. Temos uma narração a respeito que os egiptólogos chamam de Documento da Teologia Mentita.
Esse texto famoso chegou até nós sob a forma de uma cópia que o rei Sabaca (XXV dinastia, VIII século a.C.) mandou gravar numa lájea de pedra, conforme o texto de um antiquíssimo rolo de couro roído de vermes. A interpretação tornou-se difícil não só por causa da língua arcaica, mas também em virtude das lacunas e dos processos de estilo, inteiramente diversos dos usuais. Mas, tal como se encontra actualmente o documento, ele nos permite compreender as grandes linhas da doutrina que os teólogos for­mularam por volta da III dinastia.
No centro do sistema aparece Ptá, o deus de Mênfis, ao qual é atribuído o papel de demiurgo ou artífice do Universo. Ptá existia antes de tudo o mais, no seio do Nun, o Oceano Primor­dial. Deus manifesta sua actividade criadora por meio de oito formas que nele existem, verdadeiras hipóstases da sua própria essência divina.
Entre essas hipóstases uma há que intervém especialmente na obra da criação: É o deus Ur ("O Grande"), que mais ou menos se confunde com Atum. O deus Ur universal, segundo a teologia menfita é o mesmo Ptá. Conclui sua obra criadora por meio de duas faculdades, o coração, órgão que é a sede da Inteligência que concebe as coisas, e a língua, órgão que profere o verbo criador. Os egípcios, aos quais repugna a abstracção, personificaram estas duas partes do corpo humano e lhes atri­buíram, como equivalentes divinos, Horo para o coração-inteli­gência e Tot para a língua-vontade.
O deus Ur-Atum, forma local de demiurgo, deu nascimento, pelos pensamentos de seu coração e pelas palavras de sua boca, a todos os seres animados, começando pela Enéade (cuja idéia foi recebida de Mênfis) e por todos os demais deuses; a seguir criou os homens, os animais, as plantas e os minerais. Depois de ter criado a Vida e os meios para que ela subsistisse, criou os princípios da Justiça e do Direito.
O documento menfita nos põe em presença de uma cosmo­gonia que, sob aparências mitológicas e vagamente panteístas, encerra uma doutrina de aspecto quase filosófico e reflete os esforços que os teólogos despenderam para dar uma explicação racional da obra da Criação.
Mostra também o documento que os empréstimos feitos ao corpo de doutrinas heliopolitano tinham como fito principal manifestar o primado de Ptá sobre as demais divindades.

MITOS E MITOLOGIA MITOLOGIA EGÍPCIA (Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding) A TEOLOGIA TEBANA

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(Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding)

A TEOLOGIA TEBANA

Se o prestígio de Ptá é devido à elevação de Menfis a capital, sob o Antigo Império, com mais razão podemos acreditar que a rápida ascensão do deus tebano Amon sob o Império Médio é o resultado de conjunturas políticas.
Na origem, Amon era um dos elementos da Ogdoade hermo­politana, representando o Sopro que vivifica o Universo. Por razões que ignoramos, os príncipes da XI dinastia, depois de haverem restabelecido a unidade do país, adoptaram Amon como deus da sua residência.
Instalado na cidade de Tebas, ao lado do antigo deus local Montu, foi logo assimilado a Min, deus da Fecundidade, igual­mente adorado na região, e não tardou em se tornar o rei dos deuses ao mesmo tempo que o deus do Império.
Amon não tinha mitologia própria. Criaram-lhe, então, uma tríade: Mut ("Mãe") tornou-se sua esposa e como filho lhe deram o deus Consu (ou Conso), que comumente é apresentado como deus lunar.
Associaram-lhe, também, o deus Ré, o que explica o nome Amon-Ré; chegaram até a atribuir-lhe uma Enéade de treze mem­bros, à imitação de Heliópolis. Finalmente, sua afinidade com Hermópolis facilitou a introdução em Tebas da Ogdoade.
Bem se pode imaginar as complicações e confusões que essas assimilações trouxeram ao panteão tebano. Parece-nos, porém, que os teólogos não curavam de tais minúcias, acostumados que estavam a admitir combinações mitológicas comumente híbridas. Tanto isto é exacto que a doutrina oficial designava o deus dinás­tico com a apelação "Amon-Ré Rei dos Deuses, Senhor de Tebas". Isto equivale à confirmação de que o deus era o chefe indis­cutido do panteão e o deus do Império. Esse primado perma­neceu até o fim do paganismo.
Os gregos em Amon reconhe­ceram o seu deus supremo, Zeus, e deram a Tebas o nome de Dióspolis, "Cidade de Zeus".

MITOS E MITOLOGIA MITOLOGIA EGÍPCIA (Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding) O MITO DE OSÍRIS

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(Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding)

O MITO DE OSÍRIS

Ao lado de mitos que investigam ou procuram explicar os enigmas do Universo, outros há que pretendem resolver certos problemas essencialmente humanos.
Nada preocupava mais os egípcios que a Morte e a Vida além-túmulo. Que era a Morte? Qual o destino do homem depois da Morte?
Sabemos com certeza que os egípcios sempre creram numa vida além-túmulo. Dessa vida fizeram uma imagem concreta, que variou no decorrer das idades e segundo as circunstâncias. As gentes do povo, no início, esperavam, apenas, que a outra vida fosse igual a que neste mundo tinham levado. Os reis, po­rém, ambicionavam destino bem mais sublime, como o mostram os Textos das pirâmides. O rei tinha direito a uma outra vida "celeste": Purificado nas águas de uma lagoa mítica, tomava lugar na barca solar e acompanhava ré na sua rota diária atra­vés do Oceano do céu. Intimamente associado ao deus solar, recebia as homenagens dos deuses e dos gênios que povoavam aquelas regiões.
Mas o faraó poderia ter outro destino depois da morte: Ficar sob a dependência de Osíris, considerado desde as mais longín­quas eras como o protótipo dos reis defuntos e elevado ao posto de soberano do país dos Bem-aventurados.
O papel funerário de Osíris é certamente muito antigo; entre­tanto, sua popularidade como deus dos defuntos acentuou-se no decorrer das eras, ao mesmo tempo que se desenvolveu o mito que melhor manifesta essa sua característica.
A lenda de Osíris tomou corpo no Império Antigo, como o provam os Textos das pirâmides e os hinos de todas as épocas. Contudo, pouco sabemos acerca das origens de Osíris. O nome parece significar "a Sede do Olho" e deve conter uma alusão mitológica que constitui para nós verdadeiro enigma.
Admite-se, geralmente, que o culto de Osíris nasceu, como tantos outros cultos antigos, no Delta. Em Busíris, cidade que guarda a lembrança de Osíris, assimilaram este deus a uma divin­dade local, Anedjti, que aparece sob os traços de um deus-rei com os atributos da soberania.
Sob o Antigo Império, o culto de Osíris, popular no Alto Egito, implantou-se em Abidos, cidade onde se encontrava uma velhíssima necrópole real que tinha como protetor o deus Quenti­-I mentiu, "O Chefe dos Ocidentais" (isto é, o deus que presidia aos destinos dos falecidos). Pouco a pouco a personalidade de Osíris se confundiu com a do deus local; Abidos tornou-se o cen­tro do culto de Osíris, considerado doravante como o deus fune­rário por excelência. Ampliou-se o mito e novos elementos vie­ram enriquecê-lo; surgiu, assim, a tocante lenda da qual Plutarco nos deixou uma versão romanceada.
Com elementos fornecidos pelos documentos egípcios e pela narrativa de Plutarco, assim podemos reconstituir o mito sob sua forma mais completa e primitiva.
O deus Gebeb, que aparece comumente como o representante mais típico da instituição real fundada por Atum, transmitiu seus poderes ao filho, Osíris. .Assistido de sua irmã e esposa, Ísis, inaugurou um reino onde todos os mortais seriam felizes. Divulgou entre os homens a agricultura, a viticultura e as artes. Mas seu irmão Set (Tífon ou Tifão), que havia desposado Néftis, começou a invejar o sucesso e o poder do jovem irmão; no fundo do coração resolveu eliminá-lo. Durante um banquete con­seguiu fechá-lo num cofre que lançou ao rio. Ísis sai imedia­tamente à procura do esposo e o encontra em Biblos, na Fenícia, encaixado num grosso tronco de tamarindo, que o rei da região havia utilizado na construção do seu palácio. Ísis obtém a resti­tuição do cofre e o transporta de volta para o Egipto. Mas Set consegue apoderar-se do corpo de Osíris; corta-o em catorze pedaços e os espalha através do país. Ísis não descansa enquanto não consegue reaver os membros dispersos do marido; encontra todos, menos o falo. Com a ajuda de Anúbis, de Néftis e de outras divindades aliadas, faz a primeira múmia, a de Osíris. Pouco tempo depois da morte do marido, 1sis, refugiada nos marnéis do Delta, deu à luz um filho, Horo, que criou com infi­nitas cautelas, temendo sempre a ira de Set. Horo, quando atin­giu a idade adulta, empreendeu a tarefa de vingar o assassínio do pai. Trava com Set uma luta corpo a corpo no curso do qual consegue arrancar o pênis do adversário, enquanto este lhe arrebata um olho. Tot então intervém para pepsar as chagas do deus caolho e do deus emasculado. Cura a ambos. Decidem os deuses pôr cobro à luta fratricida e citam os adversários ante um tribunal. A corte divina admite o bom direito de Horo e condena Set a restituir 'a Horo o olho arrancado. Este o dá ao pai, Osíris, e o substitui pelo uraeus (em grego oGpalGt;; , do egípcio aaret) ou serpente divina, que doravante seria um dos emblemas da realeza. Quanto a Osíris, transmite seus poderes ao filho e se retira definitivamente para o reino dos Bem-aven­turados.
Na verdade, os documentos que possuímos não referem :om tanta precisão e tão completamente a história de Osíris.
A análise da lenda osinaca nos permite distinguir vários temas, dos quais, os mais importantes são: a morte do deus­-rei Osíris e sua substituição pelo filho Horo; a luta cósmica entre Horo, o deus do Céu e da Luz com Set, o deus dos Elementos desencadeados, por essa razão assimilado por Plutarco a Tífon ou Tifão; finalmente o Olho de Horo, que, depois de ter sido arrebatado ao seu proprietário, lhe é restituído para se transfor­mar em uraeus, a Serpente divina que permanece em frente ao rei.
Além disso o mito explica satisfatoriamente as múltiplas virtudes e qualidades que os egípcios atribuíam a Osíris. Inicial­mente ele aparece com Horo como o representante de um dos aspectos da realeza e explica a continuidade hereditária da consti­tuição monárquica. Osíris é o protótipo do rei defunto, que, depois de concluir sua tarefa terrestre, em morrendo transmite, a dignidade real ao filho, legítimo sucessor dos direitos paternos; finalmente, ressuscita sob forma beatificada e na região dos Bem­-aventurados descansa para todo o sempre.
Todos os reis que se sucederam no trono do Egipto, passaram por essas duas fases: Investidos da dignidade real de Horo enquanto durasse o reinado, se transformaram em Osíris no termo da sua carreira, quando transmitiam ao filho e sucessor o direito real, e como tal eram honrados pelos filhos e súditos.
Osíris era também, desde o início, considerado como um dos grandes deuses da Vegetação. Pela sua morte e imersão nas águas do Nilo, seguidas pela gloriosa ressurreição, evoca, no plano mítico, as fases da vida da natureza, com o periódico renova­mento do grão que morre para depois germinar em planta, cheia de vida e vigor. Comemorando esse fato, os egípcios, no fim da estação da Inundação (no mês de Khoiakh), realizavam uma cerimónia à qual atribuíam virtudes vitais. Depois de traçarem sobre uma tela ou um estofo a silhueta de Osíris, cobriam-na com leve camada de limo no qual semeavam alguns grãos. Logo estes terminavam e a figura se tornava assim "o Osíris Vegetal", símbolo da renovação da natureza e estímulo para que os homens se dedicassem à agricultura. Esse rito deveria ser realizado nos templos, mas fazia parte da liturgia fúnebre, como o prova a presença de "Osíris Vegetal" em inúmeras tumbas do Novo Império.
Levando em conta as peripécias que precederam a morte de Osíris e se seguiram a ela, os egípcios o fizeram deus protector dos mortos. Os ritos fúnebres dos reis, que tinham significado próprio, foram postos em relação com os principais traços do mito da morte e da ressurreição do deus. As fórmulas dos ritos fúnebres, que nos foram conservadas através dos Textos das pirâmides acentuam essa assimilação do rei morto com o deus Osíris. Quando, no fim do Império Antigo, correntes políticas e sociais abalaram o prestígio da realeza, os ritos fúnebres osi­nacos, considerados até então como prerrogativas dos reis tão somente, foram usados, em medida sempre crescente, pelos mortais comuns. No Império Médio, apreciável número de funcionários ou egípcios ricos se faziam mumificar e sepultar- se …. os ritos osinacos. A partir do Novo Império, a democratização dos ritos fúnebres generalizou-se de tal sorte que todo e qualquer defunto pôde se beneficiar dessas vantagens; era, então, cha­mado "Osíris UnteI". Para que um mortal pudesse atingir a sobrevivência osiríaca, bastava que seu corpo fosse submetido aos ritos que haviam revivificado Osíris e que se recitasse sobre o defunto as preces usadas para a ressurreição do deus. O famoso Livro dos mortos, que comumente era posto ao lado da múmia, continha, além de outra fórmulas igualmente benéficas, uma selecção de hinos e de preces mediante os quais o proprie­tário do túmulo assegurava para a sua sobrevivência o favor de Osíris e das divindades do seu ciclo.

MITOS E MITOLOGIA MITOLOGIA EGÍPCIA (Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding) O MITO DO OLHO CELESTE

MITOS E MITOLOGIA
MITOLOGIA EGÍPCIA
(Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding)

O MITO DO OLHO CELESTE

O Olho que aparece na narração do mito de Osíris e Horo é um episódio mitológico que na sua origem oferece dois temas diferentes: o tema do Olho solar e o tema do Olho de Horo; no correr dos séculos as duas tradições se interpenetraram.
Na lenda osiríaca o Olho de Horo é arrancado e depois resti­tuído, para se transformar numa nova forma, o uraeus real. Mas o deus de Heliópolis, identificado com o Sol, possuía, também, um Olho, o "Olho de Ré". Este, que primitivamente era a Estrela da Manhã, foi, a seguir, posto ao lado de Osíris regenerado pelo filho. Mais tarde quiseram ver no Olho ora o Sol, ora a Lua. O Olho de Horo, arrancado e depois restituído, simbolizaria as fases da Lua; quanto ao Olho de Ré, freqüentemente foi assimi­lado ao culto de Maat, filha de Ré.
A deusa Maat representa a personificação de um dos con­ceitos fundamentais do pensamento filosófico egípcio. Ela encar­na o princípio de ordem que rege o Cosmos e garante seu equi­líbrio; encarna também a garantia da ordem social e moral, isto é, a conformidade das leis humanas com as divinas. Em outras palavras, é a deusa da Justiça e da Verdade. Nessa quali­dade Maat assiste à pesagem da alma do defunto, diante do tri­bunal de Osíris, onde o coração, considerado como sede da cons­ciência, deverá contrabalançar exactamente com a Justiça, incor­porada na imagem da deusa.
Há, ainda, uma interpretação a respeito do Olho solar que gozou de larga difusão. Tis, cidade do Médio Egipto, da qual seria originária a I dinastia, era a residência de um deus conhe­cido sob o nome de Onúris (propriamente Ini-herit, "Aquele que reconduz a Longínqua"). Esse nome alude a um mito do qual possuímos somente versões tardias, mas cujo tema se fixou, cer­tamente, no Império Médio.
O Olho do deus solar, que aqui às vezes assume a forma da leoa Tefnut, encoleriza-se violentamente com seu senhor. O Olho­-deusa (em egípcio "olho" é do género feminino) se retira para o fundo da Núbia e lá pretende permanecer para sempre. Final­mente Onúris a vai procurar e, após havê-la acalmado com pro­messas, a conduz triunfalmente para Tis, onde o Olho retoma seu lugar na face do deus. Esta lenda, não raro, aparece sob a forma de conto popular. Ilustra, perfeitamente, a alternância das fases lunares. Como na lenda de Horo, o Olho celeste, após desapa­recer, retoma ao seu estado primitivo.
Alguns mitógrafos fazem menção do Olho São, Udjat, com referência a esse tema; o Udjat, geralmente, é considerado como o Olho de Horo restabelecido pelos cuidados de Tot. Outra versão, porém, refere que se trata do segundo olho de Horo, aquele que não foi mutilado.
O tema do Olho de Horo foi abundantemente explorado no ritual; as fórmulas tradicionais, que acompanhavam as oferendas, o assimilavam ao 01110 celeste, que foi restituído ao seu senhor. Cria.se que tal assimilação aumentava a eficácia do rito.

MITOS E MITOLOGIA MITOLOGIA EGÍPCIA (Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding) O MITO DE APÓFIS

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(Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding)

O MITO DE APÓFIS

Inicialmente Apófis ou Apópis era o génio das trevas, que, a todo instante, ameaçava o deus solar e procurava impedir que ele navegasse com tranquilidade na barca do Céu.
Sua extrema ousadia levou.o a tentar pôr o Nilo a seco, o Nilo celeste, é claro, onde vogava a barca de Ré. Cada manhã e cada noite, o deus solar, ajudado da sua divina equipagem, conseguia sobrepujar as manobras malévolas de Apófis e serenamente prosseguir sua derrota. Da luta perpétua entre esses dois poderes adversos, resulta o perfeito equilíbrio do Universo.

MITOS E MITOLOGIA MITOLOGIA EGÍPCIA (Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding) O MITO DO NOME SECRETO DE RÁ

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(Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding)

O MITO DO NOME SECRETO DE RÁ

Um tratado de mágica do Novo Império nos refere como Ísis procedeu para conhecer o nome misterioso e Todo-Poderoso de Ré.
Ísis, que era mágica extraordinária, uma espécie de Circe egípcia, tinha conhecimento de tudo que vivia sobre a terra e de tudo que o céu continha. Uma coisa somente havia que ela ignorava: o nome secreto de Ré, cujo conhecimento permitiria à deusa apropriar-se de grande parte do poder do senhor do Universo. Para conseguir seu objectivo, Ísis usou de um estrata­gema. Recolheu um pouco de saliva da boca do rei, que estava muito velho e que a deixara cair, pois se babava lamentavelmente, e, misturando-a com terra, formou uma serpente. Depois a colo­cou no caminho que Ré costumava percorrer quando passeava pelos Dois Países. Como era de se prever, o deus pisou na serpente e esta o feriu no pé. Ré começou a sentir dores atrozes. Os membros da sua comitiva, ao ouvirem os gritos desesperados, acocreram em massa; entre eles achava-se Ísis. Fingindo que muito se admirava com o sucedido, perguntou a Ré a natureza do seu mal, e lhe declara que para tornar realmente eficaz o encantamento que pretendia fazer, era mister que o nome secreto, que o deus a ninguém queria revelar, fizesse parte da prática mágica. Ísis tanto insiste, a dor é tamanha que, por fim, o nome secreto é revelado. Logo Ré fica curado; mas Ísis dispõe doravante duma força tal que poderá até ofuscar a do próprio deus solar.

MITOS E MITOLOGIA MITOLOGIA EGÍPCIA (Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding) O MITO DA VACA

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(Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding)

O MITO DA VACA

Ré envelhecera. Seus membros eram de prata, a carne de ouro, as articulações de lápis-lazúli. Percebeu, então, que os homens que habitavam o vale e os desertos se tornavam arrogantes e insolentes e meditavam, mesmo, revoltarem.se contra ele. Ré reuniu seu conselho: Su, Tefnu, Gebeb, Nut, Nun e o Olho de Ré. ..Perlnanece no teu posto — dizem.lhe os demais deuses — pois grande é o temor que inspiras aos homens; basta que o teu olhar se volte contra eles para que todos pereçam." Os homens, porém, pressentindo o perigo, fugiram para as monta­nhas. E os deuses disseram a Ré: "Deixa que o teu Olho vásozinho; que ele desça sob a forma de Hator.Secmet". O Olho transforlnou.se na deusa Hator-Secmet; esta desceu para as mon­tanhas, onde estavam os homens, e, durante muitas noites e muitos dias, fez terrível carnificina. Ré assustou-se com a fúria sanguinária de Hator-Secmet; já que a justiça fora cumprida, cumpria-lhe, agora, salvar o resto da humanidade. Como, porém, deter o braço feroz da cruel guerreira? Como apaziguar a sede de sangue que abrasava a deusa que já conhecia o sabor do sangue humano? Mandou Ré que se preparassem sete mil bilhas de licor inebriante, de cor vermelha, e que estas fossem derrama­das no vale que ficou cheio até quatro palmos de altura. O arti­fício deu resultado. A deusa bebeu do líquido, e em tal quanti­dade que não distinguia nem os homens que junto dela se acha­vam. Então Ré chamou: "Vem em paz, graciosa deusa, vem!" E ela tornou a entrar no palácio dos deuses.
Entretanto Ré se desgostara com a humanidade e desejava abandonar as plagas terrestres. O deus Nun convenceu-o a se instalar perto da vaca Nut. Quando chegou a manhã, os homens novamente começaram a murmurar; a vaca, então, com o deus sobre o dorso, transformou-se no Céu. Ré manifestou sua satis­fação por se ver localizado tão alto; mas, percebendo que a vaca tremia de medo, encarregou os génios de lhe servirem de supor­tes, pondo um ao lado de cada uma das suas patas. Além disso ordenou que Su, o deus da Atmosfera, se colocasse sob o ventre da vaca e lhe segurasse o corpo com seus braços estendidos.
Este mito é uma variante do que explica a formação e a estrutura do Universo.
O mito da destruição da humanidade apresenta Hator sob aspecto pouco simpático; é a deusa assassina e sedenta de san­gue; neste particular está associada com a feroz Secmet com cabeça de leoa.
Mas a deusa Hator, que ocupa lugar de destaque no panteão egípcio, apresenta, comumente, instintos menos sangüinários; o nome Hator significa" A Casa de Horo". Apresenta.se como uma vaca ou sob os traços de uma mulher com chifres de vaca. Pro­vavelmente, na origem, Hator era uma divindade local; muito cedo ascendeu ao posto de divindade cósmica; confunde-se, pois, com Nut, que também aparece sob a forlna de vaca. Na quali­dade de deusa do Céu, naturalmente se transforma em mãe e carregadora do Sol, cujo disco, quase sempre, se ergue entre os cornos da vaca. Foi em virtude do seu carácter cósmico ou da sua associação com a lenda do Olho solar, que ela se transformou em "Senhora Dos Países Estrangeiros"? Não o sabemos com segurança. Certo é, porém, que seu patrocínio se estende sobre longínquas regiões, para onde o faraó mandava suas expe­dições, como Biblos, na costa da Fenícia, ou nas minas de tur­quesa da península do Sinai ou mesmo no misterioso país de Punto, situado, talvez, não longe da região dos somalis. Mas era no Egito Que Hator tinha seus principais santuários. Em Denderah, onde seu templo ainda existe, ela estava Intimamente associada a Horo. Anualmente, por ocasião da grande festa de Edfu, Horo unia-se a Hator. Em Tebas consideravam-na princi­palmente como protectora das necrópoles; do fundo da sua mora­da rupestre acolhia os defuntos e lhes assegurava feliz porvir. Pois Hator, antes de tudo, era deusa amigável e prestativa.
Presidia à música e à dança, assim como ao amor, facto que fez com que os gregos a identificassem com Afrodite. Auxiliava, igualmente, às parturientes, e tinha sob suas ordens um grupo de sete deusas feitas à sua imagem; estas a secundavam nas suas actividades de ama e desempenhavam junto do berço dos recém-nascidos o papel que atribuímos às nossas fadas. Sob este aspecto veremos Hator e seu séquito intervir no nascimento divi­no do faraó.

MITOS E MITOLOGIA MITOLOGIA EGÍPCIA (Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding) O MITO DO NASCIMENTO DIVINO DO REI

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MITOLOGIA EGÍPCIA
(Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding)

O MITO DO NASCIMENTO DIVINO DO REI


Já na mais remota antiguidade criam os egípcios que o rei era de essência superior a dos simples mortais.
O faraó era a encarnação terrestre do Horo celeste, o deus-rei; admitiam, da mesma forma, que o faraó tinha a protecção especial dos deuses tutelares dos dois reinos primitivos: Necabit ou Necbet, a deusa­-abutre do Alto Egito e Uadjit (Edjo), a deusa-serpente do Baixo Egipto.
A partir da V dinastia, certamente sob influência da doutrina heliopolitana, os reis insistiram especialmente sobre sua origem solar. Ainda que conservassem os antigos títulos, proclamavam­-se "Filhos de Ré", isto é, Filhos do Deus Sol.
O conto de Quéops e dos mágicos, narração que parece remon­tar ao Império Médio, refere-nos, sob forma de lenda, o modo pelo qual os reis da V dinastia vieram ao mundo. Esses prínci­pes, destinados a inaugurar nova linhagem real, teriam nascido por obra e graça do deus solar e de uma mulher, esposa de um sacerdote de Ré, senhor de Saquebu (localidade próxima de Heliópolis); teriam nascido graças ao auxílio das deusas hábeis na arte de parturejar e que eram conduzidas pelo deus Cnum, o deus-oleiro. A medida que as deusas obstetras recebem os trigémeos, dão-lhes nomes que relembram as circunstâncias parti­culares em que o parto se produziu. Parece que a narração popu­lar tem por fito evidenciar que o príncipe herdeiro nasce da união do deus solar, incorporado ou encarnado no rei reinante, com a rainha sua esposa; destarte, realmente, ele é o filho carnal de Ré.
Há duas versões a respeito desse assunto, ambas datando da XVIII dinastia, onde os quadros que representam o episódio vêm acompanhados de textos assaz explicativos e reproduzem um verdadeiro diálogo entre os actores dessa espécie de drama sa­grado. Uma das versões, Que se vê sob o pórtico central do tem­plo de Deir el-Bahari, refere-se ao nascimento da rainha Hatxep­sut; a outra, esculpida num dos compartimentos do templo c;ie Luxor, ilustra a vinda ao mundo de Amenófis III; mas, conforme um fragmento de inscrição da XII dinastia, a composição do texto deve remontar ao Império Médio.
Nos relevos da XVIII dinastia, na verdade não é Ré que desempenha o papel de procriador, mas sim Amon. Tal substi­tuição nada tem de estranho, pois na teologia tebana evoluída, Amon havia assumido a maior parte das atribuições e funções do deus solar, entre outras a de pai do rei. Na descrição que se segue, portanto, basta substituir o nome de Amon pelo de Ré para restabelecer o estado de coisas inicial. Na primeira cena, Amon participa ao colégio divino sua intenção de engen­drar um príncipe destinado a ocupar, um dia, o trono do Egipto. Tot desempenha o papel de mensageiro das ordens divinas, e introduz na câmara nupcial a rainha que espera o divino esposo que a fecundará. No correr da entrevista teogámica, Amon mani­festa seu desejo à rainha e fixa de antemão o nome e o destino do príncipe que irá nascer. A seguir Amon se dirige para junto de Cnum, o deus-carneiro, o qual, entre suas variadas atribui­ções, tem aquela de modelar os corpos e infundir a vida; insiste junto ao deus para que dê ao filho que irá procriar um corpo de beleza ultradivina. O deus logo se põe ao trabalho; sentado diante do tomo de oleiro, fabrica o corpo do menino, ao mesmo tempo que lhe atribui o ca (ka), isto é, a alma material, que, aparentemente, não é senão uma réplica do corpo carnal. O momento do nascimento se aproxima; o deus Tot vem felicitar a rainha pela sublime missão que lhe foi confiada e que ela, segundo tudo indica, levará a bom termo; a seguir, conduzida por Cnum e por Hecat, a deusa com cabeça de rã, a Qual facilita os partos, dirige-se para a câmara dos partos, onde o feliz aconte­cimento não tarda a se realizar.
A rainha, sentada num grande e magnífico leito, segura o menino com gesto afectuoso. Ao seu redor desvelam-se deusas e gênios encarregados de lhe prestar auxílio e de lhe valer em qual­quer emergência; das atitudes ressalta o caráter mágico da missão que as deusas e os génios cumprem.
Bes e Tuéris, protectores titulados das mulheres em trabalho de parto, exercem suas funções com desvelo.
A deusa Hator, deusa-mãe por excelência, faz, então, sua entrada solene na sala de parto; toma o recém-nado nos braços e o apresenta a Amon, o pai, que o contempla com complacência e bondade, augurando-lhe glorioso e próspero porvir.
A seguir o menino é conduzido para a sala que lhe foi des­tinada, os seus compartimentos privados, onde a mãe o espera.
E logo ele é confiado, assim como as catorze hipóstases do seu ca (isto é, suas faculdades personificadas), aos bons cuidados das amas, que são as "Hators". Entretanto, Amon continua a velar pelo destino do filho. No decorrer de nova entrevista com Tot, à qual assistem o menino e seu inseparáve1 ca, ele lhe dá novas instruções. Sem dúvida, essas instruções ao deus da Escrita e da Ciência se referem à educação e ao futuro daquele menino que será o senhor dos Dois Países.
Na cena final participam Anúbis, Cnum e a deusa dos Anais. Parece que o fim dessa entrevista é fixar o destino glorioso do futuro rei.
Do exposto deduz-se com toda clareza que os egípcios, sabendo que o nascimento de um faraó era igual ao de outro qualquer menino, desejavam, conscientes da natureza supra-hu­mana do príncipe real, dar ao evento um carácter mais sublime, divino mesmo, a fim de que permanecessem bem nítidas as dife­renças existentes entre um simples mortal e o filho de um faraó.
Nos outros mitos, comumente, emprestava-se aos deuses com­portamento inspirado nas atitudes humanas; aqui, ao contrário, apresentavam um episódio bem humano da carreira real sobre um plano quase teológico.

MITOS E MITOLOGIA MITOLOGIA EGÍPCIA (Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding) O MITO DA GUERRA DE HORO CONTRA OS ADVERSÁRIOS DE RE

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MITOLOGIA EGÍPCIA
(Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding)

O MITO DA GUERRA DE HORO CONTRA OS ADVERSÁRIOS DE RE


São poucas as narrações acompanhadas de mitos e lendas divinas que possuímos, e isto se deve, naturalmente, ao facto de serem elas orais; quando eram escritas, de preferência figura­vam em rolos de papiro, os quais, cuidadosamente enrolados, fica­vam guardados nas bibliotecas dos templos.
Somente em épocas mais recentes é que começaram a gravar os textos desse gênero nos muros dos templos, a fim de lhes assegurar conservação indefinida c, sem dúvida, para permitir aos fiéis que tomassem conhecimento das façanhas do deus local.
Existe um naos (palavra grega que significa "templo" ou "capela"), proveniente de um templo do Baixo Egipto (encontrado em El-Arish), cujas paredes relatam os acontecimentos que assina­laram os reinados dos deuses Su e Geb. Esse texto refere, entre outras, as lutas desses deuses contra Apófis e seus asseclas, demorando-se especialmente nos episódios que se desenrolaram na região onde se erguia o templo ao qual o naos era destinado.
O exemplo mais típico de um relato mitológico nos é forne­cido por um texto ptolemaico de Edfu. Sobre a face interior do recinto que cerca o santuário, está gravada a narração das guerras que o Horo Behedti, o deus local, deveu sustentar contra os adversários do deus solar; a narrativa é ilustrada, de distância a distância, com magníficos relevos, onde são evocados os princi­pais episódios da luta. O texto, que se estende por toda a parede, de cima até embaixo, conta, minuciosamente, no estilo empolado e redundante que os letrados da época gostavam de usar, as peripécias dessa guerra divina. Para dar a esse texto aparências de um documento histórico, o redactor colocou sua narrativa num quadro que bem poderia convir aos anais.
Considera.se que os acontecimentos se desenrolaram no ano 363 do reinado de Ré-Haracti. Enquanto o deus-rei fazia no seu navio uma viagem de inspecção pela Núbia, soube que seus ini­migos levantaram contra ele o estandarte da revolta. Os conjurados, naturalmente, estão aliados com os esbirros de Apófis; o grupo, por todos os meios, quer se opor à ação de Ré, o deus-sol, que preside à boa marcha do Universo.
Ré, posto a par da conjura, por seu filho Horo Behedti, isto é, o Horo de Edfu, o encarrega, da missão de desbaratar os ini­migos. De feito, Horo logo consegue uma primeira vitória na Núbia; este fato alegra muitíssimo o coração de Ré. Mas os revoltosos se agrupam no Egipto, e Horo se vê obrigado a perse­gui-los por todo o vale do Nilo, através de mil dificuldades. Suce­dem-se, então, as vitórias de Horo. Após cada derrota, o inimigo reaparece sob forma diferente; ora é Set, ora é Apófis, ora um ser monstruoso como o hipopótamo ou o crocodilo. Por onde quer que passe, Horo realiza façanhas de vulto; Tot, logo em se~ida, leva a boa nova a Ré. Mas Horo prossegue na sua cam­panha vitoriosa através do Baixo Egito, e por fim expulsa o ini­migo para além do Mar Vermelho, acabando por fazê-lo fugir para a Asia. O Egito, finalmente, está livre das forças do mal; os deuses, então, retomam novamente a barca solar a fim de continuarem a derrota; Ré-Haracti retorna para a Núbia; Horo volta a ocupar seu lugar no templo de Edfu.
Essa narrativa, para nós monótona e sem maior interesse, deveria encantar o clero do templo de Edfu e sem dúvida edifi­cava os adoradores do deus; ao mesmo tempo, as alusões mito­lógicas instruíam o povo acerca da verdadeira natureza do deus local: além disso, acentuava o carácter pacificador da divindade que adoravam; por último, explicava grande número de topónimos. Com efeito, qualquer façanha de Horo ou dos seus súdi­tos, deu margem a um jogo de palavras que explicava não só o nome do local ou do santuário, mas também a própria natureza da região. Esses quebra-cabeças, expostos de maneira pouco natural, se sucedem com tanta frequência que tornam a leitura do mito de Horo bem mais fastidiosa que as demais do mesmo género.
Finalmente, não podemos olvidar que a narração procura explicar alguns emblemas que faziam parte da temática sagrada, como o símbolo do disco alado. É ele uma das formas do deus-falcão "com plumagem variegada"; essa personagem aparece inúmeras vezes no decurso da narrativa; quando, após a vitória final, sob aquela aparência, ele entra em Edfu, Ré decide que doravante esse motivo será colocado, como imagem protectora e apotropaica, em todos os lugares onde ele se detiver. Essa é a razão pela qual, em todos os templos do Egipto, o motivo do disco alado orna a cornija que encima os portais.
É bem possível Que o fundo desse mito seja mais antigo do que a versão que nos foi conservada em Edfu. Já quiseram ver nele a interpretação mitológica do tema da vitória do rei sobre os povos bárbaros; os asiáticos, destarte, seriam aí repre­sentados por génios tifónios, inimigos do deus solar.
Na versão ptolemaica, alguns quiseram ver alusão velada aos sentimentos de xenofobia que os egípcios experimentavam com relação aos persas e aos gregos que, sucessivamente, tinham ocupado o país; sob aparências mitológicas, os egípcios queriam deixar bem claro que os deuses, um dia, os haveriam de expulsar do país.