terça-feira, 19 de julho de 2011

Deus o Espelho do Homem Ideal


O homem, à medida que sofria mutações e seu cérebro ficava maior, foi aumentando seu nível intelectual e aos poucos foi realizando seus traços culturais. Convém mencionar que um dos primeiros feitos culturais foi uso de ferramentas, a domesticação do fogo e a construção de moradias. Vale lembrar que culturais correspondem a todas as atividades e todos os valores que servem ao homem na medida em que colocam a Terra a seu serviço, protegem-no contra a violência das forças da natureza, etc. – sendo essa uma concepção de Freud. A curiosidade humana e sua inquietação o levou, através de sua inteligência, a esclarecer todas as suas dúvidas. Porém o homem primata não tinha meios para entender certas coisas e não agüentou ficar neste estado de curiosidade por muito tempo, o que resultou na criação de deuses, que falavam pelo homem o porquê daquelas coisas que não entendiam. Ao longo dos anos, os deuses permaneceram, pois eram um grande apoio para o vazio existente no homem, repleto de dúvidas e medo.
O Deus criado pelo homem acaba espelhando um ideal cultural, uma perfeição que o próprio homem queria possuir. Ao longo do tempo o homem tenta alcançar esse ideal, ao passo de ele próprio se transformar em Deus. Logo abaixo mostra um trecho de Freud retirado da sua obra O mal-estar da cultura(1930), que explica essa semelhança entre homem e Deus.

“O que o homem produziu através de sua ciência e de sua técnica neste planeta, em que surgiu, de início, na condição de uma débil criatura animal, e em que cada indivíduo de sua espécie tem de ingressar outra vez na condição de bebê desamparado, não soa apenas como um conto de fadas, mas é a verdadeira realização de todos – quer dizer, é de quase todos – os desejos dos contos de fadas. Todo esse patrimônio pode ser considerado pelo homem como uma aquisição cultural. Em tempos remotos, ele formou um ideal de onipotência e onisciência que corporificou em seus deuses. A eles atribuiu tudo que lhe parecia inacessível aos seus desejos – ou que lhe era proibido. Pode-se dizer, portanto, que esses deuses eram ideais culturais. Agora ele se aproximou bastante de alcançar esse ideal, ele próprio quase se tornou um deus. Todavia, apenas da maneira que, segundo o juízo humano geral, os ideais costumam ser alcançados. Não de modo completo, em muitos aspectos de modo algum, em outros apenas pela metade. O homem se tornou uma espécie de deus protético, por assim dizer, realmente grandioso quando coloca todos os seus órgãos auxiliares, só que eles não se integraram nele e ocasionalmente ainda lhe dão muito o que fazer. De resto, ele tem direito a se consolar com o fato de que esse desenvolvimento não estará encerrado exatamente no ano de 1930 d.C. Épocas futuras trarão consigo progressos novos e de dimensões possivelmente inimagináveis nesse âmbito da cultura, aumentando ainda mais a semelhança do homem com deus. No interesse de nossa investigação, porém, não esqueçamos que o homem atual não se sente feliz em sua semelhança com Deus.”

Freud defende que Deus é uma ilusão humana que consiste em um ideal cultural, em algo que o homem gostaria de ser, alguém capaz de saber tudo e ter o poder de fazer tudo, e que tenta atingir através de suas invenções, seus passos tecnológicos que conquistam a Terra aos poucos e esclarecem todos os mistérios da humanidade. O homem se torna cada vez mais grandioso e poderoso, chegando aos poucos ao patamar de Deus. Em tempos futuros, o homem não precisará de Deus para lhe fazer uma explicação sem base científica para esclarecer suas dúvidas que restam e nem para apoio psicológico. O homem estará tão poderoso e confiante que sentirá ele próprio é capaz de realizar tudo que quiser com suas próprias mãos tecnológicas e científicas.

Entretanto, vale lembrar, que esse Deus que Freud e eu estamos falando é aquele criado pelo homem e que muitos o têm de apoio para não ficarem tão sozinhos e com medo, sendo como uma ilusão muitas vezes acreditada falsamente por alguns só para seguirem o padrão imposto pela sociedade, sendo que não estamos falando, portanto, da relação divina com o cosmos/ “Deus”/universo que alguns conseguem alcançar, que até muitos cientistas acreditam, mas não conseguem explicar por meio da ciência.


Pode-se concluir desta maneira, que os deuses que o homem primitivo criou eram algo que eles mesmos queriam ser, mesmo que isso não tenha sido de forma ciente e sim em seus subconscientes. Esses deuses, ou ideais culturais como Freud os chama, ao longo da história da humanidade se tornaram apenas um Deus em muitas religiões, cuja persistência repousa no apoio psicológico obtido por este, sendo que o homem acredita, subconscientemente, em uma perfeição abstrata e inatingível que ele queria ser. Aos poucos ele está incorporando esse Deus, ou Deus está incorporando esse homem ideal, sendo um o espelho do outro.


Biografia: 
Mariana Lorenzo
FREUD, Sigmund. O Mal-Estar Na Cultura. 1930. Coleção L&PM Pocket
Postar um comentário