quarta-feira, 15 de junho de 2011

Religião e Seriedade


     Ontem à noite eu estava debatendo alguns assuntos interessantes numa conferência por telefone, quando uma das pessoas disse:  “Religião é um assunto muito sério”.  Concordo que se encarem os fundamentos e procedimentos de uma religião como devem ser;  mas as pessoas tem confundido as coisas e passaram a acreditar que seriedade é algum tipo de postura que leva à respeitabilidade.  É a sociedade que causa essa confusão, e isso acontece em todos os segmentos da sociedade.
     Uma vez, lendo um artigo sobre as palestras de Osho, ele disse uma coisa muito interessante:

     “Se você encontra Jesus na cruz... com uma cara séria inglesa – algumas vezes me pergunto porque ele nasceu na Judéia. A Inglaterra era o lugar certo para ele; ele é inglês, sem tirar nem pôr. Ele nunca riu. E então, aquela cruz séria... e não apenas ele teve que carregá-la, ele diz a seus discípulos que todos deveriam carregar uma cruz sobre os ombros. Por que todos deveriam carregar sua cruz sobre os ombros ?  Por que não um violão ?”

     Fazer as coisas certas não tem nada a ver com seriedade.  Seriedade me parece mais como uma doença, uma falta de humor total.  E se você não tem senso de humor,  não poderá ter compreensão.  Eu nunca vi nenhuma estátua, pintura ou qualquer representação de santos, mestres ou divindades rindo.  Isso é por demais frio, distante, e a sensação que se tem é que isso se trata de um auto-controle qualquer,  e se você se policia e se controla dessa maneira não pode ser uma pessoa sincera, não existe calor humano, não existe conexão com o espírito, com o interior.  Isso parece mais alguma coisa mental, artificial.  Tornou-se um clichê afirmar que quanto mais consciente a pessoa se torna, mais séria ela fica, o que não representa a verdade em absoluto.
      Consciência é um estado de totalidade, e nele não há espaço para a seriedade auto controlada.  Esse tipo de seriedade mais se parece com a tristeza,  e acredito que essa tristeza se deva ao fato de que essas pessoas realmente não encontraram sua espiritualidade.  Consciência significa que a pessoa atingiu o pico, o cume,  e nesse caso como é que não há celebração, alegria e riso ?
     Algumas pessoas estão afirmando numa comunidade do Orkut que a auto-iniciação é válida porque a “Deusa” disse que “se você não encontrar o que procura dentro de você, não encontrará fora de você”,  e um wicano tradicional comentou por lá que essas palavras não são da Deusa, mas foram escritas por Doreen Valiente.  Novamente interpretações erradas, totalmente erradas de textos tradicionais.  É impossível interpretar esses textos pelo lado de fora, sem vivência e nem treinamento dentro da Tradição.  Eu percebo que essas tentativas de justificar o injustificável se devam, claro, a armadilhas do ego.  Essas pessoas se sentem ordinárias, comuns, mas querem ser extraordinárias, incomuns.  Na verdade os Deuses nunca criaram nada ordinário, mas essas pessoas usam isso como alimento egoísta.  Ninguém tem coisa alguma a ver com esse problema,  porque tudo o que é extraordinário se torna incomum por causa dos Deuses,  porque tudo o que existe veio do Todo, permanece enraizado no Todo, para em seguida se dissolver no Todo.
     É um ranço cristão acreditar que somos ou nascemos pecadores e miseráveis e portanto precisamos tornar-nos extraordinários. Porém isso é uma tremenda armadilha do ego, a não ser que você tenha realmente tido uma experiência espiritual e tenha vivenciado a divindade.  Ou seja,  tenha se tornado consciente.
     Wica é uma das únicas religiões que eu conheço aonde essa seriedade social, mundana, não tem sentido.  Wica é celebração, e é por isso que a energia pode fluir livremente.  Não existem barreiras para a felicidade, a não ser aquelas que você mesmo colocou lá.  A vida não é uma prova com barreiras, nela não existem condições a serem satisfeitas para ser feliz.  Isso é uma insanidade.  Mas a maioria das religiões organizadas dizem:  “Primeiro faça isso e aquilo, e então você poderá celebrar, poderá ser feliz.”  A sua felicidade é condicionada, e essa grande mentira tem causado muitos males.
     Trata-se do velho estratagema – e puxa vida !,  isso já devia ter sido desmascarado há muito tempo – de fazer com que as pessoas se sintam ordinárias, inferiores e então acenar-lhes com a salvação, criando o desejo de que se tornem superiores.  Primeiro criam a culpa, a condenação, e então acenam com um caminho miraculoso.
     Toda a dificuldade em seguir o sacerdócio wicano é este.  As pessoas se “convertem” à Wica pensando que nela poderão utilizar os mesmos velhos métodos.  Isso cria muita dificuldade, e quando toda essa gente percebe que tais métodos não funcionam aqui, começam a deturpar a religião para que a antiga neurose possa ser colocada em ação.
     Realização espiritual é uma coisa que independe de tempo.  Você pode ser realizado, feliz, pleno, exatamente agora, se quiser.
     Hoje recebi um e-mail cujo título:  “Você é feliz?”  me chamou a atenção:

     “Durante um seminário para casais, perguntaram à esposa:
     - Seu marido lhe faz feliz? Ele lhe faz feliz de verdade ?
     Nesse momento, o marido levantou o pescoço, demonstrando segurança. Ele sabia que sua esposa diria que sim, pois ela jamais havia reclamado de algo durante o casamento. Todavia, sua esposa lhe respondeu com um  “Não”, bem redondo...
     - Não, não me faz feliz.
     Nesse momento, o marido já procurava a porta de saída mais próxima quando veio a conclusão da resposta.
     - Ele não me faz feliz... Eu sou feliz. O fato de eu ser feliz ou não, não depende dele e sim de mim. Eu sou a única pessoa da qual depende a minha felicidade. Eu determino ser feliz em cada situação e em cada momento da minha vida, pois se a minha felicidade dependesse de alguma pessoa, coisa ou circunstância, sobre a face da terra, eu estaria com sérios problemas. Tudo o que existe nesta vida muda constantemente... O ser humano, as riquezas, meu corpo, o clima, meu chefe, os prazeres, etc. E assim poderia citar uma lista interminável. Às demais coisas eu chamo  ‘experiências’, esqueço-me das experiências passageiras e vivo as que são eternas: amar, ajudar, compreender, aceitar, perdoar, consolar. Lembro-me de viver de modo eterno. Talvez seja por isso que quando alguém me faz perguntas como esta, gosto de responder com apenas uma frase, como se esta fosse a conclusão de todo o seminário, como se fosse a chave de toda a felicidade, de todo casamento e de toda a vida humana; gosto de responder com aquela velha e famosa frase que ainda não conseguimos compreender:  ‘A felicidade está centrada em mim.’    

Segredo na Arte Conteporanea


Talvez o tema do que seja “segredo” na Arte Gardneriana Contemporânea, precise ser revisado sem idéias pré-concebidas.  Decidir o que Era segredo,  PORQUE era segredo, e então o que precisa ser segredo AGORA.

Apesar das pessoas certamente serem bem-vindas para discordar de mim, da lista T.Rospo e minhas próprias pesquisas eu vejo as idéias de Gardner do que é segredo possuírem quatro componentes:

a)  “Os Segredos da Arte”,  isto é,  a magia dos bruxos. Quando Gardner fala da “Arte” ele está, quase sem exceção, falando de magia e de técnicas mágicas. Isso inclui atos mágicos que estão inseridos como partes de um ritual e os que não estão. Observe que Gardner está querendo falar sobre o tipo de coisas que acontecem dentro da magia (elevando poder, usando um boneco), mas não como essas coisas são feitas ou usadas.   Também observe que Gardner não considera tudo o que acontece no círculo nem tudo nos livros dos bruxos como mágicos e portanto secretos.

Até aonde eu estou apto a falar das palavras de Gardner, ele acreditava que o propósito em manter essas coisas secretas é,  primeiro,  proteger o público do mau uso dessas técnicas,  e,  segundo,  proteger a Arte da inevitável reação que deve vir se o público for prejudicado pela magia dos bruxos, mesmo que os bruxos sejam inocentes.

Fonte:  Os juramentos.  Eles são os únicos segredos quebrados. Apesar do uso incorreto do termo “perjuro” para envolver todos os segredos da Wicca, todos os outros aparecem sob uma das outras três categorias.

b)  Proteção da Arte e de seus membros. Uma das nossas mais solenes obrigações nos proíbe de identificar outros bruxos sem sua permissão explícita, direta ou indiretamente (tal como revelar onde os encontros acontecem).

Acima estão as razões para que nossos encontros sejam mantidos em segredo. Eu poderia supor que Gardner podia muito bem ter concordado que se todos no círculo estivesse de acordo e todos os atos mágicos visíveis fossem removidos,  poderia ser permitido realizar um círculo wiccano em público!

Fonte:  As Leis da Arte. Isso nada tem a ver com juramentos, mas das Leis da Arte que são explícitas a respeito.

c)  Os nomes da Deusa e do Deus.  Gardner claramente ensinou que a Deusa e o Deus não querem seus nomes proferidos em vão.

Enquanto Gardner entrou pouco nesse raciocínio, exceto que isso é uma antiga prática,  eu creio que muitos de nós concordam que,  do ponto de vista oculto e psicológico,  que usar o nome sagrado sem reverência enfraquece esse nome para os cultuadores do Deus ou Deusa.

Por outro lado, muitos covens e linhas tem ido muito longe, tornando os nomes verdadeiros da Deusa e do Deus secretos,  conhecidos apenas pelos iniciados de 3* grau.  Eu não creio que fosse isso que os ensinamentos de Gardner pretendiam, porque isso tem o efeito de degradar os nomes da Deusa e do Deus a meras senhas.

Fonte:   Tradição oral e os escritos de Gardner.

d)  Tudo o que a sua HPs disse para você não revelar.

Várias vezes Gardner disse em seus livros que ele não podia revelar alguma coisa simplesmente porque ele fora informado a não fazer!  “Eu sou um humilde membro de um coven. Eu não sou um chefe ou líder de qualquer modo, e eu Tenho que fazer o que me dizem.”  De fato, muitos acreditam que Gardner só esteve apto a publicar Witchcraft Today depois de ter deixado o coven de New Forest e estar trabalhando com uma nova HPs,  Dafo.

Eu não creio que Gardner sentisse que uma HPs tivesse qualquer autoridade além do seu coven imediato.  Em Dancing with Witches de Lois Bourne, por exemplo, há uma parte na qual ela descobre algumas cartas de Dafo, exprimindo sua desaprovação de alguns novos iniciados de Gardner.  Gardner não parece se importar,  e isso me diz que  Dafo não era sua HPs há muito tempo e não tinha nenhum poder sobre ele.

Fonte:  Escritos de Gardner e as Leis da Arte.

Eu concordo que o assunto dos segredos na Arte seja revisado. Também, igualmente importante no meu ponto de vista é  “segredo para quem?”  Eu sinto que a proliferação de  “tradições”  e  “linhas”,  muitas recusando-se a falar com as outras sobre assuntos de “perjuro”  devido à questões de “validade”,  é um dos maiores obstáculos evitando o crescimento e o progresso da Arte Tradicional.  Muitos de nós estão tão presos em nossas políticas que raramente temos tempo para fazer o trabalho da deusa e do Deus!

Eu comentei o que eu acredito que Gardner manteve como segredos da Arte, e não temos autoridade de salvar os próprios deuses.

BB
Oakseer

Segredo na Arte


“Que isso seja uma ordem, que ninguém possa falar de ninguém da Wicca, nem da Arte, ou dar nomes, ou aonde eles moram, ou de qualquer modo falar nada que possa trair qualquer um de nós. Nem possa dizem onde o Coven está,  ou onde os encontros acontecem.”
Ardanes 31-34,  como dadas no Grimoire de Lady Sheba.

Talvez você soubesse disso a vida toda, que nós temos um nome. Talvez as árvores falassem com você na infância, como elas falavam comigo. Provavelmente você pensasse que era o único. Você pode até ter achado que estava maluco, e seus pais e professores podem ter achado isso também.  Então, um dia, você de algum modo descobriu que centenas e milhares de nós tem sentimentos e experiências parecidos – o momento de voltar ao lar, que nós chamamos de descoberta da comunidade. Porque nós sabemos da vontade individual, a comunidade é preciosa para nós.

Mesmo depois disso, você pode ter gasto um tempo longo procurando o professor certo, o grupo certo, e então mais tempo trabalhando e estudando para preparar a iniciação. Finalmente, eles dizem, você está pronto.  Tudo que era necessário, você fez. Num solene e belo ritual, agora você toma seus votos – Bruxo e Sacerdote/Isa.  A iniciação pode ter tocado você como a conclusão de um longo processo, mas a palavra significa certamente “início”. De agora em diante, você tem como calcular o que a Bruxaria é e o que significa viver como um Bruxo.

Votos de Segredo
Nossas muitas Tradições diferem em suas exigências. O conteúdo preciso dos nossos votos iniciatórios são, para muitos de nós, um segredo iniciatório em si mesmos. Ainda é comum saber que quase todos os votos dos próprios bruxos tem alguma forma de segredo. Absoluta discrição é a nossa idéia universal íntima.

Mesmo os mais chatos ateístas compreendem que uma quebra de juramentos destrói a auto-estima.  Isso também, certamente, nos afastará da verdade e do respeito daqueles que mantém seus juramentos, e dessa forma, quebradores de juramentos se excluem da comunidade. E para aqueles de nós que estimamos nossa relação com os Deuses, as conseqüências vão muito além disso. Se nós sabemos o que é bom para nós, manteremos a fé o melhor que podemos.

Manteremos silencio mesmo sob tortura, certo ?  Este é o ponto: ninguém sabe. No Tempo das Fogueiras,  era fácil saber o que se devia fazer, desesperadamente difícil de fazer isso. E ainda, em alguns lugares do mundo,  existem batidas na porta na calada da noite. O que se pode saber é como eles esperam que se conduzirão naquele tempo. Ninguém sabe como eles agirão em casos extremos, e  o sábio reza para nunca ter que descobrir.  Realisticamente, e reconhecidamente, para nós no mundo de língua inglesa é mais improvável encarar esse tipo de horror.

Nosso desafio, ao invés, é discernir o que devemos fazer. Ao invés da força bruta, muitos de nós se confrontarão com ambigüidade e confusão,  um caminho cinza e nebuloso com poucos pontos de referência. Outros necessitam e valores podem entrar em conflito com nossa tradição de silêncio.  Saiba: enquanto você está sentado lendo este ensaio, algum Bruxo, em algum lugar,  está se debatendo com uma decisão difícil sobre se, quem, e quanto falar. Imagine o que  sentiria ?  Essa é a crise que você provavelmente vai encarar algum dia.

Então todos esses juramentos que nós fazemos são só hipocrisia ?  Nós devemos policiar isso e parar a prática – só confiando em nossos melhores instintos de bruxos para nos guiar através das complexidades ?

Ao menos um dos meus estudantes vê isso dessa forma. Ele avalia que seus próprios estudantes conhecem o certo e o errado. Durante o treinamento deles, ele está certo de que eles tem plena oportunidade de pensar satisfatoriamente e falar das controvérsias que eles provavelmente encontrarão, e assim podem estar mentalmente e emocionalmente preparados.        


Sexualidade Wicca


Eu estava acompanhando uma discussão em uma lista americana a respeito das implicações referentes a juramentos de fidelidade e intimidade sexual com pessoas que não sejam parceiros casados.  Normalmente, esses juramentos são feitos em cerimônias de religiões ortodoxas (judaísmo, cristianismo, etc) e retratam uma visão centrada em regras mais mundanas do que precisamente religiosas.  Toda essa atual auto-repressão vem certamente de tais regras, e isso tem afetado bastante, por parte de praticantes modernos, a compreensão de fundamentos bastante específicos e imprescindíveis da Wica, e também da Bruxaria.
Na minha visão do assunto, acredito que as pessoas saibam de ante-mão quais são os ritos de Wica antes de serem iniciados.  É por isso que atualmente praticamos a regra de esperar um ano e um dia para elevar alguém na Arte.  Infelizmente, o sexo tornou-se um enorme problema para a humanidade após o advento da repressão religiosa tanto no ocidente quanto no oriente.  Só existem, na verdade, duas coisas que nunca são comentadas abertamente: sexo e morte.  E infelizmente,  são essas as duas únicas coisas que a Bruxaria e a Wica cultuam.
Então, assistimos a uma degeneração (mais uma entre tantas) dos ritos wicanos, ritos esses imprescindíveis para a realização de qualquer ritual.  Gostaria de saber que pagãos são esses, que ao serem admitidos num círculo e iniciados, continuam seguindo regras e dogmas de outras religiões ?   Se essas pessoas não trabalharam seus condicionamentos e repressões,  como puderam ser iniciados ? Essas perguntas, até onde sei, permanecem sem resposta e tenho procurado postergar iniciações de pessoas que não se libertaram de suas prisões.  Enfim,  tais problemas jamais deveriam sequer existir, quanto mais serem motivo de discussão entre iniciados.
Mas as pessoas são reprimidas e esses condicionamentos foram impostos pela força e pela selvageria dos fanáticos.  Na verdade, todo mundo sabe que a melhor maneira de se controlar pessoas é mantê-las com medo.  E o maior medo que existe é aquele que vem de regras impossíveis de serem cumpridas.  As religiões ortodoxas esmagaram a sexualidade como uma coisa suja, vil e anti-religiosa.  A visão do paganismo é totalmente distinta disso,  mas foram aquelas mesmas religiões ortodoxas as responsáveis pela destruição desse mesmo paganismo e pela imposição dessas regras.  A sexualidade é tão natural quanto respirar.   Torne uma coisa natural proibida e você criará a culpa e dominará a população.
Então, ainda não consigo entender como juramentos e regras impostas por outras religiões podem afetar o desenvolvimento de ritos pagãos.  Quando alguém se converte à Wica, faz juramentos aos nossos Deuses.  Mas a repressão vem de longa data,  e as pessoas terminam quebrando sua própria ligação com os deuses wiccanos, tornando a nossa religião um simulacro sem nenhum sentido,  mais parecendo uma brincadeira de crianças.
Não consigo entender como pessoas iniciadas ainda permanecem atreladas nesse cabresto, uma vez que dentro de um círculo wiccano todo e qualquer tipo de identidade mundana se torna irrelevante e qualquer tipo de ligação exterior perde o significado.
Talvez a culpa desse problema se deva a acontecimentos ocorridos na Inglaterra no final dos anos 60 e início dos anos 70,  quando houve um movimento religioso ortodoxo no sentido de, novamente, tentar destruir o paganismo e particularmente a Wica como uma religião válida.  Algumas Sacerdotisas empenharam-se em desfazer a impressão causada por esse movimento,  entre elas Eleanor Bone e Patrícia Crowther.  No sentido de tentar tornar a Wica uma religião aceitável,  elas jogaram por terra muitos fundamentos da Arte (ao menos para o grande público),  e isso se tornou uma verdade para pessoas que não haviam sido iniciadas de verdade,  leram alguns livros e fundaram “tradições” que na minha opinião não são válidas.
Ano passado postei neste forum um texto escrito por Linda Landstreet a respeito desse assunto e da moderna impossibilidade de realizar o GR e outras cerimônias, transformando-as em palhaçadas simbólicas sem nenhum poder ou ligação com os Antigos.
Parece que a percepção atual a respeito desses ritos, é de que eles expressam atos sexuais ou orgias, quando na verdade não são relações sexuais comuns ou mesmo um casal comum se amando,  mas a União Mística e Sagrada de duas pessoas que se dissolveram completa e profundamente uma na outra e que abriram espaço para os Deuses atuarem por meio deles.  Se os modernos wiccanos rejeitam isso,  então ainda quero saber o que estão fazendo na nossa religião ?  Estão aqui por modismo ou interesse ?  Quando se diz que nem todos são para a Wica, não é por menos.
Atualmente,  os modernos ‘sacerdotes’ wicanos desconhecem completamente os fundamentos mais primários da religião ou descartam-nos como algo vergonhoso.
É a intromissão do mundano na esfera religiosa.  Seria melhor que essas pessoas resolvessem seus problemas psicológicos e suas limitações, antes de botarem o pé na Wica.
Os livros não tratam desse assunto, que se tornou um tabu desde que tiveram que mostrar a Wica como uma religião da natureza, uma religião meio que cor-de-rosa e ingênua. As pessoas se esquecem de que essa premissa é para o público ignorante, e não para sacerdotes wicanos.
Muitos covens admitem somente casais em seu meio.  Isso seria muito bom, mas já presenciei a dissolução de parcerias e casamentos, e se um dos dois permanece no coven continua reprimido e refém das próprias limitações, que obviamente nunca foram trabalhadas. Isso de nada adianta.
É bastante desalentador verificar que muitos sacerdotes modernos abandonaram os antigos ritos, talvez por serem ignorantes a respeito de seus fundamentos.  Ninguém mais sabe que um ‘templo’ é formado quando um homem se une a uma mulher e se tornam um. O amor é o templo, e o orgasmo no qual nenhuma identidade existe e são perdidos todos os parâmetros mundanos é o verdadeiro canal de manifestação dos Deuses.  Há um texto muito antigo que diz: “Onde as vacas se divertem com os touros, acompanhadas por seus filhotes, ou onde belas mulheres flertam com seus amantes, esse lugar é um local apropriado para um templo”.
É exatamente isso que faz com que, no círculo, nos movamos do tempo para a ausência do tempo.  Wica não fala em nenhum momento em casamento biológico;  fala em casamento sagrado, no qual corpos e mentes são irrelevantes e a pessoa mergulha na profundidade do ser e torna-se um canal da divindade. É assim que a Deusa e o Deus de Chifres se tornam disponíveis, e na Wica verdadeira não conheço outro método, porque é no rito que sacerdote e sacerdotisa transcendem o sexo e os pólos opostos se ligam através do amor.  Aliás,  é somente através do amor que existe tal ligação e permite a descida do êxtase divino.

Responsabilidade Wicca



Será que alguém ainda sabe o que é isso ?   Qual a importância, a profundidade da responsabilidade ?   Responsabilidade tem que caminhar lado a lado com a liberdade.  Para ser livre você tem que ser responsável e se você não quer responsabilidade acabará perdendo a liberdade.
É um fato conhecido que todos neste mundo querem ser livres,  mas ninguém quer ser responsável.  As pessoas vivem transferindo a responsabilidade para os ombros alheios,  mas quando isso acontece estão também jogando na lata do lixo a própria liberdade.


É interessante que em qualquer segmento da vida humana, tanto religioso, social, profissional, etc.,  são as pessoas que escolhem seu caminho e a maioria das pessoas acaba criando um inferno particular.


Conheço muita gente que quer ser sacerdote, quer ser wicano.  Perseguir esse efeito sem se comprometer com as causas é a loucura da mente, e deve ser por isso que muito poucos conseguem se tornar sacerdotes.  A semente é a causa da existência da árvore, mas as pessoas querem olhar para a árvore sem olhar para a semente.  É triste.  Sempre tenho dito:  sempre olhe para a causa.  Se você consegue ver o efeito, a causa está lá, inserida no contexto.  Resultados, o que chamamos efeito,  jamais podem acontecer se não se olha para a causa.  As pessoas querem obter o efeito,  mas não querem dar importância para a causa e isso é o que faz a mente ordinária, aquela mente estúpida que acredita que pode obter um fato sem conseqüências.


Isso deve ser devido ao fato de que todos querem ser livres, mas temem a liberdade.  Quando alguém me diz que quer liberdade,  eu já olho desconfiado.  Isso é puro papo furado, porque na verdade o que as pessoas querem é viver na dependência.


Nossa religião é uma religião de indivíduos, ou seja, dos que realmente se encontraram com suas responsabilidades e se tornaram livres.  Não somos um divã de analista no qual as pessoas se deitam confortavelmente e vomitam toda aquela droga,  mas sem assumir nenhuma responsabilidade por si mesmos.  São essas pessoas que despencam sob o que chamamos de “seleção natural”  e finalmente se vão com as mãos vazias.


Isso se deve ao velho hábito de se fingir de morto, enquanto as coisas acontecem  “lá fora”.  Alguém tomará a responsabilidade, mesmo porque a grande maioria não tem capacidade nem mesmo de ser responsável pela própria vida.  Fingem que são, representando uma peça teatral bizarra, projetando máscaras na tentativa de enganar aos outros,  e pior,  a si mesmos.


Infelizmente, hoje em dia, a palavra compromisso virou um palavrão.  Quem quer se comprometer ?  Todos querem ser dependentes,  porque na dependência existe conforto, o mesmo conforto da morte, mas ainda um conforto.  Nem mesmo nas relações  de amor existe mais qualquer compromisso !   As pessoas se prendem muito nas palavras, mas o que tem importância são as ações.  A insegurança é uma droga, e por causa disso ninguém quer se comprometer,  mesmo tendo assumido um compromisso.  Patético,  inconsistente,  totalmente contraditório.  A maioria das pessoas vive em contradição e então onde está a liberdade ?


Realmente tudo isso é um desperdício. Conheço muita gente que possui potencial, mas o crescimento desse potencial nunca acontece porque eles nunca conseguem segurar o timão.  Estão eternamente esperando que alguém o segure para eles.  Para mim isso é vegetar, nunca viver.  Mas esse medo e falta de coragem para dar o salto, para cair de cabeça nas profundezas e ser participativo,  ter algo a ver com o processo, fazer parte dos resultados,  bota tudo a perder.


Curtir o desejo por coisas grandes sem se comprometer é como viver no mundo dos sonhos.  Mas tal mundo é irreal.  Só é preciso ter a coragem, mesmo porque você não é paraplégico.  Apenas tenha coragem, porque a única coisa necessária é um pequeno instante para dar o salto.

Sacerdócio e Vocação


Sempre olhei para essa questão da mesma maneira. Para mim, vocação e sacerdócio tem que caminhar juntos.  Um não pode existir sem o outro,  mesmo porque as exigências da função determinam essa necessidade.  E tal necessidade se traduz naquilo que costumo chamar de amadurecimento espiritual. Amadurecer é tudo.

Existem certas funções que trazem a exigência de uma vocação.  Por exemplo,  o médico, o policial,  o sacerdote.  Quando essa vocação não está presente na alma,  aquele que desempenhará o ofício será um médico, policial ou sacerdote medíocre;  no nosso caso um sacerdote de segunda mão.  Podemos perceber o por que disso se nos dermos conta de que para seguirmos um caminho sacerdotal precisamos ter atingido um florescimento interno em termos de transcendência.  E é aqui que começam os problemas.  Quem não transcendeu suas limitações,  não estará apto para servir.  E o médico, o policial e o sacerdote  são servidores.  É preciso muita renúncia,  muita dedicação,  muito amor.  Todas as vezes que penso a respeito desse tipo de doação,  percebo que é imprescindível que aquele que serve tenha mergulhado na corrente viva da existência e no mínimo tenha compreendido as limitações do próprio ego.

Hoje em dia a situação é bastante triste.  Ninguém pensa em servir,  em se doar,  em confiar.  As pessoas só pensam em serem servidas,  em receber, e ninguém mais confia.  Tenho recebido inúmeros e-mails dizendo a mesma coisa,  e parece que esse discurso é combinado:  “Quero ser iniciado, mas não confio em nenhum sacerdote e não pretendo me abrir.  Como posso fazer ?”   A resposta é sempre a mesma:  “Não pode fazer coisa alguma!”   Religião é basicamente confiança e quanto mais essas pessoas estiverem presas à sua mente racional, menos serão capazes de conhecer o que é profundo.  E então ficamos assistindo a essa imensa superficialidade e a esse comércio descarado que já conhecemos.   Então, a única resposta é essa,  porque a pessoa que faz esse tipo de declaração,  apenas declarou sua total incapacidade para ser um sacerdote,  para servir.

Vocação é imprescindível.  É essencial ter talento, disposição, predestinação. É essencial ser predestinado para servir.  E sacerdócio é uma eterna servidão. Só que ninguém quer isso.  Todos querem status,  querem fama,  não trabalharam e abandonaram seu falso ego e agora estão desviando seus interesses mundanos para o mundo espiritual.  Entretanto a espiritualidade não pode ser atingida dessa maneira, porque isso é pura violência.  A espiritualidade só pode ser alcançada no silencio,  jamais no tumulto, na multidão,  no mercado.

Se certas pessoas ficam ofendidas com as minhas palavras,  paciência.  O que eu estou afirmando é a mais pura verdade.  E nas vezes em que sou atacado por dizer a verdade,  mais me conscientizo de que o que estou afirmando é o correto.   Isso pode ser verificado muitas e muitas vezes no decorrer do processo de aprendizado,  e as pessoas que não possuem vocação cedo ou tarde irão embora porque eu mesmo crio situações para que elas se vão.  E a coisa mais fácil neste mundo é pessoas irem embora.  Isso é muito fácil.  O difícil é fazer com que elas fiquem porque todo mundo está sempre pronto para partir, uma vez que se conscientizar, abandonar seus bloqueios e neuroses é a aventura mais difícil que existe.  É doloroso, dá trabalho, leva tempo, requer uma abertura incondicional, etc., etc.

Como tudo isso é penoso,  então alguns grupos pseudo-religiosos estão incentivando essa tal de auto-iniciação.  Isso é que é legal.  Não dá trabalho,  qualquer um pode se tornar  “sacerdote”  na hora que quiser,  nenhuma luta interna se processará.  Assim não existirá luta e tensão.  Mas também não existirá honestidade.  E atualmente parece que a palavra honestidade se desprendeu e caiu de dentro do Dicionário.

Esse é o problema com o mundo hoje em dia:  médicos que entram na profissão por dinheiro e sem nenhuma vocação, causando mais erros médicos que acertos;   policiais corruptos que protegem bandidos e matam cidadãos inocentes;  sacerdotes interessados apenas em publicidade,  dinheiro e fama.  É isso que a falta de vocação para servir causa.  Entretanto tenho percebido que isso é tremendamente destrutivo,  e não trará felicidade aos envolvidos.  Apenas aborrecimentos, transtornos, desilusão.

A mentalidade dos falsos sacerdotes,  dos mascates e “vendilhões do templo” é aquela mesma mentalidade aquisitiva do ego:   existem poucos wiccans tradicionalistas,  e existem milhares de auto-iniciados,  logo a verdade está com a maioria.  Um teorema fajuto, ignorante e bastante superficial,  mas racional.  Essas pessoas não saíram e abandonaram a noite da ignorância,  não tem o mínimo vislumbre do que possa ser um caminho espiritual verdadeiro.  São pessoas que iniciaram a jornada pelo final,  são pessoas que começaram a jornada pelo divino,  pela “Deusa”  (aquela que inicia todo mundo de qualquer jeito).   Essa gente começa pela conclusão.  Porém essa conclusão só acontecerá quando não houver mais ninguém, porque quando você não está,  Ele e Ela estarão.  A pessoa é a barreira, o obstáculo, mas é impossível explicar isso e não é possível fazer com que alguém entenda isso pela razão.   Qualquer início se dá a partir de você.  Qualquer outro expediente é uma total viagem do ego.  Mas todo mundo começa pelo fim,  e então tudo se perde na mais pura ilusão.  Só que não dá pra explicar.

Uma Visão atual da Wicca


          Vivemos numa época de constantes e rápidas mudanças.  Ao contrário dos nossos ancestrais,  que passavam suas vidas numa espécie de realidade previsível,  estamos expostos todo o tempo a influências muitas vezes originadas em pontos muito distantes,  mas que nos afetam na medida em que o mundo  se transformou numa enorme aldeia,  como já previra  MacLuhan.
          Apesar dessas transformações e mudanças externas,  existem coisas que ainda são imutáveis,  graças aos Deuses.  O pensamento moderno,  acostumado a conviver com alterações constantes,  passou a crer que todas as coisas, tanto superficiais quanto profundas,  estão sujeitas do mesmo modo a essas mudanças. Tornou-se uma necessidade humana promover transformações.  Mas há coisas que não podem ser tocadas por nossa vontade,  e essas coisas são,  entre outras,  as Leis da Natureza que a tudo regem.  Podemos conhece-las,  mas não podemos alterar-lhes o fluxo.  Coisas como o nascimento,  a morte e o eterno ciclo das estações,  são realidades imutáveis.  Mesmo cientificamente falando,  qualquer incursão no terreno das leis físicas,  aproveita suas marés pré-existentes.  Tanto a magia quanto a moderna física,  embarcam na corrente do rio existencial para utilizar do seu poder.
          A Wica tem sido transformada nos últimos 40 anos.  Por diversos motivos, ela tem sido adulterada:  uns dizem que para melhor e outros dizem para pior.  Tais motivos são conhecidos de todos os modernos wicans,  e só para falar de alguns,  podemos enumerar o afastamento progressivo das tradições e dos ensinamentos antigos,  a auto-iniciação,  o puritanismo judaico-cristão de muitos novos convertidos,  etc.
          Meu propósito neste artigo não é o de falar sobre essas mudanças e seus motivos.  Mais importante do que tudo,  é procurarmos compreender a visão ancestral da bruxaria,  desse antigo rio que desaguou na Wica.  Se a Wica tem se tornado uma religião distorcida e superficial,  precisamos  procurar  na sua origem seus verdadeiros fundamentos.   Esses fundamentos nos reportarão a princípios primitivos,  pois a bruxaria é uma religião primitiva,  não no sentido de conhecimento menos complexo ou inferior,  mas no sentido de antigo,  primordial.  Já era praticada no período Neolítico e sua antigüidade pode ser observada em muitos de seus ritos.  Como sabemos,  a Wica é uma religião que usa a magia como meio de expressão.  A magia é empírica,  utiliza-se de uma seqüência de ações e procedimentos práticos,  sendo que no seu exercício,  o poder flui por determinados canais energéticos que precisam ser alimentados.  Infelizmente,  hoje em dia,  muitos desses ritos de grande poder foram substituídos por simulacros ou ritos simbólicos.
          Nos últimos anos,  tenho erguido uma bandeira incansável no sentido de conscientizar os neo-wicans da necessidade de conhecer os ritos antigos e de praticá-los corretamente.  Este artigo pretende mostrar a necessidade de um retorno às práticas ancestrais,   porque é através delas que o poder se manifesta.
          Os modernos wicans,  ao negarem ou desconhecerem os antigos ritos,  abriram mão do poder.  Isso é deveras lamentável,  e tornou a Wica uma religião superficial justamente naquilo que é uma de suas bases importantes:  a magia.  O que temos assistido é a uma brincadeira colorida e festiva.  Muitos wicans só conhecem os ritos religiosos que estão descritos no Livro das Sombras,  desconhecendo completamente os fundamentos existentes além deles.
          Antes de falarmos sobre alguns desses ritos tão antigos,  precisamos perguntar a nós mesmos se estamos determinados a realiza-los ou não. Em caso negativo,  devemos procurar descobrir o que nos impede de faze-lo.  Muitos bloqueios morais estão inseridos nessa recusa,  muitas vezes inconscientemente.  Se nos propomos a seguir uma religião pagã,  necessitamos estar cientes de que seus padrões morais e éticos são totalmente diferentes daqueles das religiões ortodoxas.  A essência da Arte pode parecer nova para muitos dos recém convertidos,  que assumem uma postura de intransigência com relação à aceitação de seus princípios e valores.   Entretanto esses valores são tremendamente antigos e não existem por acaso.   Eles estão inseridos num contexto e nega-los porque nossos condicionamentos não os aceitam é abrir mão de uma gama tremenda de poder ancestral.
          Isso algumas vezes se torna bastante perigoso,  como eu mesmo tenho presenciado em diversas oportunidades.  Algumas vezes,  os poderes invocados e levantados no círculo comparecem e precisam ser alimentados com certos tipos de energia que não tem sido mais utilizados pelos modernos wicans.  Como não podemos explicar a esses poderes que agora esses ritos são feitos apenas simbolicamente,  eles não receberão as energias devidas,  mas de qualquer forma vão absorve-las de outra maneira,  porque estão lá para isso.  As conseqüências podem ser percebidas desde o surgimento de pequenos problemas de saúde até perigosos distúrbios no sistema nervoso central:  em primeira instância,  são problemas que afetam a aura do praticante,  por onde a energia vital é drenada, e que não sendo detectados,   terminam por se transformar em doenças físicas.
          Do mesmo modo,  as energias dos próprios praticantes necessitam ser repostas,  realimentadas,  o que implica num conhecimento bastante específico.  Como o próprio Dr. Gerald Gardner mencionou em seu livro Witchcraft Today,  nossos corpos  “transpiram”  o poder.  Assim,  precisamos saber perfeitamente por onde esse poder é transpirado,  o momento certo para projeta-lo e o momento certo de retê-lo.  Em contrapartida,  também precisamos conhecer as técnicas de fechamento e proteção,  pois do mesmo modo como as energias são exteriorizadas por nós,  também podem ser absorvidas.  E não é nada interessante absorver uma carga de energia negativa.
          Naturalmente que todos esses cuidados só são imprescindíveis quando os praticantes realmente lançam corretamente o círculo e sabem invocar os Guardiães.
          Existem muitos materiais que são utilizados nos antigos ritos como canalizadores do poder.  Essas substâncias são transmissores e receptores naturais de energia  e  possuem um poder intrínseco.  Devido ao seu poder peculiar,  podem absorver,  canalizar e projetar energias.  Entre as principais,  temos:  sangues de todos os tipos  (animal, vegetal e mineral)  e  pós feitos com matéria orgânica e mineral.  A questão do sangue na Wica é muito controvertida e a maioria dos wicans afirma que ele não é usado.  No entanto,  em determinados rituais,  não existe substituto possível para ele.   Não existe nada mais forte,  mas os Mistérios do Sangue estão quase que completamente esquecidos.
          Durante muitos séculos,  os ritos sexuais desempenharam um papel preponderante na bruxaria,  uma vez que estão intimamente ligados aos poderes da vida,  da morte e do renascimento.  Qualquer rito iniciático não é válido sem a presença dos Mistérios Sexuais,  bem como dos Mistérios do Sangue.  Entretanto Grande Rito tornou-se hoje uma pálida e inexpressiva  paródia.  Pode ser muito bonito mergulhar um punhal numa taça,  mas o poder não está nessa farsa.  Qualquer wican devidamente iniciado e  que tenha realizado o Grande Rito real,  sabe que no seu arremedo simbólico não existe uma canalização de poder semelhante.  A maioria dos covens modernos deixou de praticar os ritos dos Mistérios Sexuais.
          Ninguém mais ouve falar dos ritos de confirmação da liderança sacerdotal,  realizados a cada sete anos.  Esses ritos só podem ser presenciados por iniciados de 3*.  Atualmente,  por desconhecimento talvez,  os ritos foram substituídos por um simples juramento no círculo.  Mas  o  poder  pessoal precisa ser alimentado devidamente,  o que não é mais feito.  Tal cerimônia encarrega-se de restituir as energias do Alto sacerdote ou Alta Sacerdotisa,  decorridos os sete anos.  Como no rito iniciático,  essas energias são canalizadas através de substâncias vitais para as quais não existe substituto.  
          Covens tradicionais (Gardnerianos e alguns Alexandrinos), continuam a praticar esses ritos.  Eles são transmitidos pela tradição oral,  nunca foram escritos em nenhum lugar.  Os Anciãos que ainda detém esse conhecimento preservam-no muito bem.  Um bom exemplo,  é encontrado no antigo ritual de imobilização,  também conhecido como rito de atar.  Tenho lido algumas descrições bastante superficiais dele,  omitindo partes importantes e imprescindíveis,  pois tais detalhes não devem ser publicados. Os ensinamentos dos anciãos nos dizem que somente bruxos iniciados devem realizá-lo.  O propósito desse rito é neutralizar influências negativas ou perniciosas vindas de outras pessoas.  Começa-se fazendo uma boneca que representará a pessoa,  se possível utilizando pedaços de roupa usadas por ele ou ela.  De acordo com a natureza do rito,  a boneca será feita e utilizada na fase lunar propícia.
          A primeira recomendação é que a boneca seja confeccionada com materiais naturais,  já que são melhores.  Lã,  algodão e seda são melhores do que materiais sintéticos.  A maioria dos wiccans já teve experiências com materiais sintéticos e constataram que eles não proporcionam uma ligação energética satisfatória.  Muitos fazem uma boneca de malha ou crochê,  pois enquanto ela é preparada,   visualizações e mentalizações reforçam o propósito da magia a cada ponto da costura.  Quando a boneca é confeccionada,  costuma-se incorporar qualquer objeto que pertença à pessoa que ela representa,  tais como cabelo,  pedaços de unhas,  uma fotografia do rosto para ser colocada na cabeça da boneca. Como podemos perceber,  a identificação com a boneca deve ser a nível real,  ou seja,  energético.  Seguindo os ensinamentos do velho caminho,  no mínimo um homem e uma mulher devem realizar o rito.  O segredo é encenar o chamado “nascimento”,  ou seja,  transmitir vida à imagem.  Isso pode ser feito utilizando-se substâncias como o sangue menstrual,  sêmen,  saliva,  etc.,  seguindo-se a uma dramatização do parto,  assistido pelo homem.  Quanto mais real o rito melhor,  e o ideal é que o casal possua uma forte ligação íntima,  como parceiros de coven.  Essa é a parte principal do rito,  que termina com a amarração da boneca dentro da máxima concentração e visualização.
          Como podemos perceber,  materiais orgânicos são excelentes transmissores do poder.  Nos ritos de iniciação,  por exemplo,  são os vários tipos de sangue que possibilitam a transmissão da ancestralidade.  Esta só pode ser passada pelo sangue,  que é o veículo de transferência em todos os rituais que envolvem morte e renascimento.
          Para compreendermos a necessidade da realização dos rituais da maneira correta,  podemos fazer uma analogia interessante entre o rito real e o simbólico.  Por definição,   símbolo é um elemento ou objeto material,  que por convenção arbitrária,  representa ou designa a realidade complexa.  Quando invocamos determinados poderes no círculo,  eles desconhecem completamente nossa visão arbitrária e representativa da realidade.  Eles esperam obter o poder e as energias específicas,  necessárias para a execução do rito.  Se o rito é simbólico,  seria o mesmo que convidar você para um jantar,  servindo somente fotografias dos pratos em lugar das comidas.  Algo bastante frustrante.  Como pessoas civilizadas,  podemos até compreender e rir de tal procedimento,  mas tais poderes não tem esse senso de humor.  Em magia precisamos lidar com as energias reais,  e não com convenções.  O poder precisa fluir,  não é uma opção facultativa e dependente dos nossos caprichos.
          Outro ponto importante,  é aquele que se refere ao Chamado do Deus nos círculos de Wica.  Essa cerimônia tem sido descartada sistematicamente,  uma vez que envolve uma nítida expressão sexual.  Infelizmente não posso entrar em muitos detalhes,  mas nos covens que ainda seguem o velho caminho,  o Sacerdote ou alguém por ele escolhido,  serve de veículo para a canalização do poder do Deus em seu aspecto de Senhor da Fertilidade.  Evitar esse rito e utilizar-se de substitutos simbólicos não é recomendável,  uma vez que a essência divina do Deus de Chifres não fluirá através da pessoa escolhida.
          Na Chamada da Deusa dá-se a mesma coisa,  embora a intensidade da manifestação sexual não seja tão visível,  por motivos óbvios.  Entretanto os procedimentos iniciais necessitam ser realizados em ambos os casos,  já que é a energia sexual que canaliza o poder.   O canal de acesso do poder divino no círculo é aberto do seguinte modo:  através da ativação dos nossos centros de poder,  canalizamos energia que, junto com o estímulo sexual ativa nossas glândulas endócrinas,  gerando mais poder.  A nossa energia tende a subir pelos centros,  até o centro da cabeça,  abrindo-o.  O poder da Deusa e do Deus flui por ele,  preenchendo o corpo,  mente e espírito do sacerdote receptor.  Assim falando pode parecer simples,  mas essa prática necessita de um treinamento árduo e penoso,  a partir do 2*,  ao menos na BTW.  Qualquer bruxo da velha escola sabe que,   ao estarem preenchidos pela essência divina,  os sacerdotes exteriorizam esse poder,  e o modo mais forte é através do sêmen e das secreções vaginais.
          Outros ritos que foram marginalizados pelos modernos wicans  são aqueles centrados nos Mistérios da Transformação, cujo veículo principal é o crânio.  Poucos covens na atualidade sabem como utiliza-lo corretamente e a maioria deles nem mesmo possui um.  No entanto o crânio é importantíssimo como elemento de ligação com a nossa ancestralidade.
          Todas estas informações poderão parecer chocantes para muitos dos modernos wicans,  mas observando a situação atual da Wica,  vemos que,  embora ela seja uma das religiões que mais cresce no mundo,  tem sistematicamente perdido muitos de seus fundamentos.  Inegavelmente não se pode aprender Wica através de livros,  principalmente se os autores veiculam suas idéias próprias a respeito da religião e não possuem uma ancestralidade definida.  Infelizmente,  muitos dos modernos wicans tem seguido as versões de autores modernos,  como Starhawk e S. Cunningham,  que na verdade não podem ser observadas como padrão da realidade.   Ao mesmo tempo,  presenciamos a uma total falta de respeito com relação aos anciãos,  que passaram a ser vistos pelos novos wiccans de igual para igual.  Inegavelmente que esses anciãos são detentores de grandes conhecimentos,  que devido a essa postura,  são lamentavelmente perdidos.
          Esses poucos exemplos nos mostram o quanto é importante procurarmos estabelecer um contato mais íntimo com os conhecimentos antigos.  Embora seja corriqueiro afirmar-se atualmente que o Dr. Gerald Gardner  “criou” a Wica a partir de diversas fontes,  na verdade o conhecimento ancestral adquirido no coven de New Forest não foi negligenciado.  Todo o conhecimento dos Mistérios Sombrios wicans  foi devidamente resguardado pela tradição oral.  Cabe aos modernos seguidores da  Religião resgatá-los e preservá-los para que não sejam totalmente esquecidos.

Wicca e a Evolução


Estava lendo alguns textos acerca de evolução espiritual.  Alguns desses textos são ecléticos, ou seja, foram escritos por não-iniciados.  Neles percebo a distância que existe entre esse pensamento, formado de opiniões diversas, e a verdadeira teologia de Wica.  Parece que estava lendo cristãos falando a respeito do seu Deus, de como ele é perfeito e de como criou o mundo.

Nunca vi, em nenhum ramo do paganismo, essa noção cristã de perfeição.  E olhem que Darwin destruiu essa concepção de um Deus perfeito e de um mundo perfeito.  A Igreja ficou com muito ódio de Darwin por isso,  devido ele ter destruído as raízes do conceito de perfeição.  Segundo os cristãos,  Deus é perfeito, o mundo é perfeito, você é perfeito e portanto quem precisa de evolução ?   Não há nenhuma necessidade de crescimento, porque como alguma coisa poderia ser melhor ?

Lendo alguns textos neo-wiccanos, percebi que as pessoas que os escreveram devem ter vindo do cristianismo, porque trouxeram esse conceito arcaico, ultrapassado e ignorante para a Wica.  Para esses pseudo pagãos,  não existe evolução porque a Deusa é perfeita e portanto tudo é perfeito.  Segundo essa gente, o mundo é o corpo da Deusa.  O mais engraçado, é que dentro dessa linha de pensamento a única coisa que pode ocorrer é um enorme sentimento de frustração e de culpa.  Essa idéia não pode transformar ninguém, porque é a idéia mais egoísta que eu já vi depois do cristianismo.

Qualquer idéia de perfeição o joga para o amanhã, para o futuro. Você sabe que não é perfeito, você não pode ser perfeito agora.  Então começa a trabalhar para encontrar a perfeição.  Mesmo porque, mesmo que alguém acredite nessa bobagem de que  “a Deusa é perfeita e que eu sou perfeito”,  sabe no íntimo que não é perfeito,  sabe que possui a feiúra dentro de si,  sabe que não tem nenhuma beleza interior.  Então tem que perseguir a perfeição e a projetar isso para o futuro.  

Eu nunca tinha lido tanta coisa esquisita, tanta bobagem sobre Wica antes. Algum tempo atrás, conversando com uma dessas auto-iniciadas,  fiquei chocado com esse conceito de “perfeição” cristão. Na verdade essa gente desconhece que o importante não é ser perfeito. O importante é ser total, e isso muito pouca gente é.  Totalidade não depende de nenhum futuro.  Você pode ser total agora mesmo:  está me lendo, então leia totalmente;  está me ouvindo, ouça totalmente.  Em qualquer lugar em que você esteja,  simplesmente esteja totalmente ali, e então o crescimento tem início. Crescimento só é possível quando você é imperfeito, nunca de outra maneira.

Não sei porque a mente humana tem tanta necessidade de imaginar a perfeição.  Todos os deuses inventados pelo homem são perfeitos, todos os santos, profetas, sacerdotes também. As escrituras os pintam como seres perfeitos, mas a única coisa que eles sabem fazer é condená-lo.  Qualquer coisa que angarie perfeição, servirá apenas para condená-lo.  Como se comparar com isso ?  Uma vez que o ser perfeito foi caracterizado,  você estará com um imenso problema.  A culpa começa a destruí-lo.  E essa Deusa inventada por cristãos que invadiram a Wica servirá para trazer frustração,  culpa.  Eu nunca tinha visto culpa no paganismo,  mas agora essa possibilidade se tornou realidade.

Seria tão bom se esses pseudo pagãos parassem de inventar,  de trazer conceitos cristãos para o paganismo !   Na verdade,  nenhum cientista, nenhum iniciado disse que os Deuses também estão evoluindo, mas eles estão. O criador e a criadora também estão evoluindo e nunca chegaremos ao ponto do mundo estagnar, parar, e alguém dizer:  “Pronto, agora tudo ficou perfeito”.

Para se falar a respeito da teologia de qualquer religião, é preciso ter estudado durante anos essa teologia.  Infelizmente,  esses não-iniciados não tem nenhum acesso ao BoS.  Tudo o que eles conhecem, ou veio de textos totalmente fragmentados ou através da própria invenção.  E nisso reside uma grande pobreza.  Em qualquer tipo de perfeccionismo existe a negação de tudo o que for humano e mundano.  Não adianta, perfeição não existe. Totalidade existe e é tudo o que qualquer sacerdote precisa ser.

Seja total em tudo que você fizer e sendo total você começará a compreender os processos que o tornaram um ser limitado,  frustrado,  infeliz.   Lembre-se,  crescimento é vida.

A Roda Do Ano


       A Roda do Ano é a essência de todo o conhecimento pragmático na Antiga Religião.  Compreender o seu mecanismo,  é entrar em sintonia com as marés energéticas da Natureza,  e já que a Wica é uma religião centrada nas forças naturais,  para operarmos no Círculo devemos estar totalmente voltados para os fluxos dessas energias.  Na bruxaria,  quando operamos um ritual qualquer,  precisamos seguir as correntes naturais e não andarmos na contra-mão dessas forças.  Saber utiliza-las é o mesmo que estarmos integrados com a sabedoria ancestral.
          Uma das maiores polêmicas atualmente, entre os praticantes de “Wicca” eclética,    refere-se à dúvida em seguir a Roda pelo hemisfério norte ou pelo sul.  Entretanto,  uma das primeiras coisas que devemos saber,  é que a Wica é uma religião centrada nos ciclos da Natureza e que utiliza a magia através desses fluxos energéticos.  Como veremos detalhadamente mais adiante,  os principais fluxos de poder da Roda são a fase crescente e a fase decrescente do ano.  Enquanto no hemisfério norte se inicia a fase de crescimento do poder,  no hemisfério sul estamos no período de esvaziamento, declínio e morte.  Assim sendo,  fica um tanto estranho comemorarmos, por exemplo, a morte do Deus em pleno período do início do verão,  ou celebrarmos a última colheita de outono ao mesmo tempo em que os campos estão sendo semeados em plena primavera.  Isso seria andar contra os movimentos energéticos naturais,  uma atitude totalmente contrária à própria essência da bruxaria.  Como afirmei anteriormente,  Wica é uma religião centrada nas forças da Natureza.  Assim, necessitamos navegar com a correnteza do poder,  e não contra ela.
          Isso explicado,  observemos detalhadamente os ciclos sazonais do ano,  que estão intimamente relacionados com o mito da Deusa e do Deus e seus ritos de passagem,   simbolizados pelos ciclos de vida,  morte e renascimento.
          Para entrarmos verdadeiramente no espírito do mito e reconhecer sua essência prática no mundo que nos cerca e em nossas vidas,  temos que olha-lo com os olhos dos antigos pagãos.  Um dos maiores erros cometidos pelos novos pagãos,  é o de interpretarem a Roda a partir de conceitos modernos.  Se quisermos compreender realmente o maior Mistério wicano,  devemos adentrá-lo com o mesmo espírito de nossos ancestrais,  e reconheço que isto não é lá muito fácil.
          Para nossos antepassados,  celebrar a passagem dos ciclos naturais era uma forma de, magicamente, fazer a Roda girar.  Longe de representar somente um agradecimento pelas dádivas divinas,  o culto colocava em movimento as forças naturais e tudo acontecia a partir do desencadeamento desse poder.  Compreendermos esse pensamento é muito difícil atualmente,  uma vez que a civilização ocidental esteve por mais de 2000 anos condicionada pela visão religiosa cristã,  na qual estamos separados dos ritmos do mundo e do cosmos, não possuindo nenhuma participação no seu desenrolar.  Tudo o que se pode fazer é agradecer pelas bênçãos divinas,  se formos merecedores.
          Entretanto,  o pensamento pagão é muito diferente, e o conceito de que estamos totalmente inseridos no contexto universal é muito antigo.  No Egito, se o Sol se levantava pela manhã,  era porque o culto do despertar divino era realizado nos templos.  Se a inundação do Nilo era abundante,  devia-se aos ritos efetuados em homenagem a Hapi  e a Isis.  As celebrações de agradecimento,  destinavam-se apenas a demonstrar que,  através dos rituais realizados,  a energia tinha sido posta em movimento.
          Lembro-me do tempo em que comecei meu tempo de dedicação em  Wica num coven em Newcastle,  Inglaterra.  Na época do plantio,  íamos para os campos e trabalhávamos semeando a terra,  para no início da noite celebrarmos Ostara.  Em Lammas fazíamos a colheita,  enquanto as mulheres cozinhavam o pão e os bolos.  Nosso trabalho,  a terra,  os grãos,  tudo tornava-se uma coisa só,  e o poder emanava de nossos corpos e da própria terra,  fazendo com que a Roda girasse e a vida fosse um todo unificado no qual não havia nenhuma separação entre nós e a Natureza.
          Quando o primeiro pão cozido com os primeiros grãos de trigo era colocado sobre o altar,  representava o fruto do trabalho e a certeza de que ele nunca faltaria, porque éramos parte inseparável do processo e nosso poder lhe dava continuidade.  Afinal,  os Deuses estão em nós,  e nós neles.  Sentir-se parte atuante do equilíbrio natural é também uma maneira de sentir, em sua plenitude, os ciclos de poder em nós mesmos.
          Como veremos a seguir,  os ritos sazonais que compõem o Mistério maior de Wica,  são muito antigos.   Os que podem remontar à época Paleolítica,  são chamados de Sabás Menores e celebram os equinócios e solstícios.  Os outros quatro,  chamados de Sabás Maiores,  são comemorações legadas pelos celtas,  ligados aos ritos agrícolas.
          Vamos começar por Imbolc,  que assinala a fase de crescimento do ano,  embora iniciar por qualquer Sabá seja a mesma coisa,  já que estamos observando um simbolismo cíclico e perene.


          Imbolc assinala o fim do inverno e o próximo despertar da Natureza,  que esteve morta durante os meses de inverno. No hemisfério sul,  é comemorado a 2 de agosto.  Iniciamos um período de aumento de calor,  a vida retorna lentamente aos campos e é o tempo de se fazer purificações expulsando as trevas que ainda reinam e preparar o terreno, tanto interior como exterior, para tudo o que pretendemos plantar e colher no ano que se inicia.  Aqui a Deusa é representada como uma menina,  que traz todas as possibilidades criativas,  simbolizando a própria Natureza que renasce.  Ela é potencialmente o início de tudo o que se deseja realizar junto com o crescimento do ano.  Enquanto as marés de energia ganham força e crescem,  tudo o que foi projetado e planejado vai se tornando realidade.  A purificação realizada nessa fase visa a preparar o nosso próprio interior,  esvaziando-o de todas as cinzas do ano passado e preparando-o para empreender o novo.  O crescimento da Deusa menina se reflete no crescimento de nosso eu,  tanto a nível material quanto a nível espiritual.  O Deus nessa fase, em algumas tradições, também é um menino pequeno,  representa o calor do sol que começa a renascer, ainda fraco,  iluminando pouco o mundo,  mas já com a promessa de trazer a fertilidade e a nova vida.  A Deusa vai se preparando para receber as sementes que a fecundarão futuramente,  enquanto que o Deus vê sua força ir aumentando gradativamente para fecunda-la.
          O Mistério vivido em Imbolc é o do renascimento,  o da preparação para a vinda de um novo ciclo vital,  e isso se dá não só nos campos,  mas também no interior de todos nós.  Imbolc é um festival do fogo,  e os antigos celtas festejavam a deusa Brigid acendendo fogueiras e tochas,  fazendo com que as luzes afastassem cada vez mais as trevas.  No interior de cada um,  a luz precisa expulsar a escuridão negativa do passado.  Quando se afirma que o ciclo vivido pelos novatos para a iniciação é de um ano e um dia, procura-se inicia-lo em Imbolc,  no sentido de que o processo de crescimento espiritual acompanhe o ciclo natural da existência.  Desse modo,  o novato vivencia o ciclo de vida e morte,  sendo iniciado (renascendo) em Imbolc.


          Ostara,  ou Equinócio de Primavera,  é comemorado no hemisfério sul entre 21 e 23 de setembro.  Nele,  a Deusa é uma linda adolescente,  pronta para ser cortejada pelo Deus, que surge como um jovem cheio de vigor.  Dias e noites tem duração igual,  o que no simbolismo de Ostara significa que a Lua e o Sol percorrem juntos o firmamento e que a Deusa e o Deus estão mais próximos um do outro.
          Ostara é um Sabá de fertilidade,  é a época do plantio,  tanto nos campos quanto no nosso interior.  Durante esse período,  a terra será preparada para receber as sementes,  o Deus aos poucos vai perdendo as características de filho da Deusa para tornar-se seu consorte.  Num plano pessoal,  tudo aquilo que foi planejado e arquitetado em nossa mente,  para ser realizado no ano que começa,  é a partir de agora semeado para que frutifique.  No Sabá de Ostara,  um dos Mistérios a ser vivido é o de que tudo o que é semeado será por nós colhido inexoravelmente.  Aquilo que plantarmos no terreno do nosso espírito, crescerá,  frutificará e será colhido.  O poder do ano crescente é usado aqui para que impulsione a concretização dos desejos,  tornando-os realidade.


          Em Beltaine,  outro festival solar e do fogo,  a Deusa é uma exuberante mulher e o Deus um jovem adulto.  Ambos consumam sua união,  transmitindo ao Sabá um cunho notadamente sexual.  O Sol,  cujo poder de luz e calor aumenta cada vez mais,  penetra na terra,  impregnando-a com as sementes que frutificarão (plantio).  No hemisfério sul,  Beltaine é comemorado a 31 de outubro e marca o início do verão.  Inicia-se a época de maior plenitude e força na Natureza,  período em que as marés energéticas de crescimento e poder deverão ser utilizadas para tudo aquilo que queremos construir e engrandecer.
          Em contato com a Natureza,  podemos traçar um paralelo entre o que acontece fora e o que sucede dentro de nós.  Sentimo-nos plenos de poder,  com a certeza de que todas as coisas almejadas estão diante de nós.  
          Com a união mística da Deusa e do Deus,  ela engravida dele e guarda no seu ventre sua semente viva.  


          Litha,  ou Solstício de Verão,  comemora-se entre 21 e 23 de dezembro em nosso hemisfério.  É o dia mais longo do ano e assinala o auge do poderio do Sol e do Deus de Chifres,  que atingindo a maturidade,  encontra-se na sua plenitude e felicidade.  A Deusa encontra-se grávida,  assumindo os atributos de Deusa Mãe.  Talvez seja a época de maior alegria em toda a Roda, uma vez que vivemos na plenitude do poder e da abundância.  Luz e calor trazem o pico de energia traduzido num ritual de fogo e de vida.
          Para todos os wicanos,  Litha representa a materialização de todas as esperanças.  Todos os projetos e pretensões que haviam sido lançados desde a época do plantio começam a se tornar realidade.  Notamos desse modo,  que o ritual de meio de verão é um processo vigoroso de transição,  no qual as realizações ainda não foram colhidas,  mas estão quase maduras para tal.  Como tempo de transição,  percebemos que atingimos o ápice do ano,  mas ao mesmo tempo entramos na fase de declínio,  na qual a progressão natural é o início do ano decrescente que culminará no Solstício de Inverno.
          Na Wica Tradicional,  essa fase de transição (tanto o Solstício de Verão quanto o de Inverno) é algumas vezes celebrada através do mito do Rei do Carvalho e do Rei do Azevinho,  tema esse que se tem mostrado uma constante em quase todas as religiões da antiguidade, tendo até mesmo sido incorporado pelo cristianismo.  Para entendermos melhor esse simbolismo,  dividimos a Roda do Ano em duas metades,  sendo o Rei do Carvalho o Deus do ano crescente que no Solstício de Verão cede seu lugar ao Rei do Azevinho o deus do ano decrescente.  Como vimos,  é no ponto mais alto do verão que se inicia o declínio ou o movimento natural em direção ao inverno.
          Nessa tradição ancestral,  o Rei do Carvalho morre nas mãos do Rei do Azevinho,  para renascer no Solstício de Inverno e substituí-lo nos ritos de Yule.  Essa rivalidade entre os dois deuses gêmeos,  que na realidade são aspectos do próprio Deus Cornífero,  girava em torno do amor e das atenções da Deusa.  É a própria Deusa,  em seu aspecto exuberante e sensual,  quem preside à substituição do Rei do Carvalho por seu gêmeo sombrio,  símbolo da decrepitude.
          Na Bruxaria Tradicional Gardneriana,  Litha possui o aspecto de ritual do fogo e da água,  um representando o poder fertilizador encarnado no Deus, e o outro o poder a ser fertilizado representado pelo Caldeirão de Ceridwen e pela Deusa. Como Sabá solar,  Litha era visto como um dos maiores festivais na Europa antiga.  Alguns autores afirmam que a tradição dos ritos solares foi trazida para a Península Ibérica pelos árabes e mouros que lá se estabeleceram durante séculos.  De qualquer maneira,  era a época em que inúmeras fogueiras eram acesas por toda a parte.  O antigo costume de acender fogueiras no Solstício de Verão era muito comum no Marrocos e na Argélia. Essas fogueiras eram acesas nos pátios das casas,  praças, ruas e nos campos, onde eram encontradas grande variedade de ervas que produziam uma fumaça agradável, entre elas a arruda, tomilho, camomila, gerânio, etc.  O costume local era passar pela fumaça das fogueiras,  saltando-as sete vezes,  já que acreditava-se que elas tinham propriedades curativas e proporcionavam fertilidade.
          Outra tradição que remonta a épocas muito antigas,  e que está ligada aos ritos de fertilidade do Solstício de Verão,  refere-se a realizar o Sabá de Litha “vestido de céu”  (nudez ritual).  Antigamente,  era costume que as mulheres dançassem nuas pelos campos na véspera do solstício para que colheitas abundantes fossem asseguradas.  Elas cavalgavam suas vassouras pelas plantações,  pulando até a altura que as colheitas deveriam crescer.  Tal costume continuou até nossos dias,  quando se faz uma paródia desse ritual,  com danças de fertilidade no Círculo.


          Com Lammas ou Lughnasadh,  comemoramos as primeiras colheitas e a chegada do outono.  Em nosso hemisfério é celebrado a 2 de fevereiro, e assinala o início do declínio do poder solar e do próprio Deus,  que torna-se um homem velho.  Como Sabá centrado nos ciclos agrícolas,  Lammas é importantíssimo,  no sentido em que registra o sacrifício divino em prol da humanidade.  O Deus doa sua força e seu poder,  assumindo o papel de mantenedor e protetor da vida.  O Deus é o fruto do ventre da Mãe,  representa o trigo maduro pronto para o corte.  Ele é ceifado,  transformado em pão e consumido.  Os produtos naturais, como o trigo e as uvas,  são os maiores representantes desse momento místico,  pois transformados em pão e vinho,  encarnam a essência do Deus sacrificado,  oferecida no Sabá.  Comer do pão e beber do vinho é o mesmo que ingerir a essência divina do Deus de Chifres,  que deu a sua vida para nos prover de alimentos.  O alimento sagrado e místico,  compartilhado em comunhão no Círculo,  é um dos mais antigos ritos da bruxaria,  e que mais tarde foi usurpado pelo cristianismo.  
          Como tempo de colheita,  devemos refletir que tal simbolismo se traduz em realizações tanto materiais quanto espirituais.  Começamos a colher tudo aquilo que plantamos no início do ano crescente,  agora transformado em realizações concretas e existenciais.  Ao doar sua força e sua vida,  o Deus enfraquece.  Como uma época de enfraquecimento de poder,  é o tempo ideal para realizarmos banimentos e afastarmos coisas indesejáveis,  tanto a nível material quanto espiritual.  O que desejamos ceifar de nossa existência ?  Trata-se de aproveitarmos a maré vazante do ano para fazermos com que determinadas coisas que não mais queremos, sejam arrastadas pelo turbilhão natural de declínio.  
          Enquanto o Deus se transforma num homem velho,  a Deusa,  por sua vez também se transforma numa mulher mais velha.  A Natureza começa a enfraquecer,  o calor do sol diminui,  a exuberância da vegetação anterior cede lugar à uma paisagem mais amena,  na qual se prevê ao longe a vinda do inverno.


          Mabon,  ou Equinócio de Outono,  é comemorado entre 21 e 23 de março.  Marca o fim das colheitas que irão garantir a sobrevivência durante os meses de inverno.  As noites e os dias se igualam novamente e a Deusa e o Deus são anciãos,  apesar dela ainda trazer no ventre o fruto de sua união sagrada.  O Deus prepara-se para a morte,  enquanto a Deusa assumirá uma fase de recolhimento,  durante a qual aguardará a vinda da Criança da Promessa.
           É o tempo final de escoamento das forças energéticas,  mas num nível mais perigoso.  Utilizar as energias de declínio em Mabon requer muita prática na Arte.   A origem dos ritos de Mabon é muito antiga e é quase certo que os celtas o tenham assimilado  através  de contatos com os gregos.  Nas antigas lendas de Perséfone,  encontramos ecos longínquos desse simbolismo.  O Mito da Descida da Deusa também nos remete a antigas celebrações realizadas em Eleusis,  onde a Deusa descia às profundezas da terra para encontrar o Deus,  surgindo novamente mais tarde para conceber o Filho da Promessa,  que renascia como a garantia do retorno da fertilidade e da vida.
          O período de recolhimento traduz-se no próprio recolhimento da força da Natureza. As árvores começam a perder suas folhas,  os campos novamente estão sem vida,  e o clima torna-se mais frio.  Tal recolhimento deverá ser observado também em nosso interior,  e devemos nos preparar para encararmos um novo e duro ciclo de declínio e morte.


          Samhain assinala o final do ano celta e o início de um tempo de trevas, o início de uma lacuna entre o último dia do ano e o Yule,  época de incertezas sobre o retorno da vida,  de longas noites e dias curtos.  No hemisfério sul,  é cultuado no dia 1 de maio.  O Deus de Chifres “morre”,  e é pranteado pela Deusa.  É o fim de um ciclo,  e a morte é um momento importante de reflexão.  Em termos energéticos,  a existência parece submergir num buraco negro sem fundo,  no qual as tênues cortinas entre os mundos proporcionam uma ligação nítida com os ancestrais e com a própria energia em declínio.  Na Bruxaria Tradicional Gardneriana,  o Mistério vivido em Samhain é a morte e a promessa de renascimento.  A morte chega,  mas a semente da vida está latente no útero da Deusa.  


          Yule,  ou Solstício de Inverno,  é a noite mais longa do ano,  e no hemisfério sul é comemorado  entre 21 e 23 de junho.  A Criança Divina nascerá da Mãe,  num simbolismo claro de que após a noite mais longa e de maior escuridão do ano,  há um prenúncio da vinda da fase de crescimento e revitalização.  A vida sempre renasce. A semente rompe sua casca na escuridão da terra, fazendo surgir a raiz e o pequeno talo.
          No simbolismo dos Mistérios wicanos,  em Yule devemos estar preparados para romper com a nossa inatividade.  A semente representa o estado de latência e imobilidade pelo qual todos nós passamos ao final de um ciclo na vida.  A grande dificuldade é romper com a falsa segurança da semente,  que tem todas as possibilidades em si mesma de se tornar uma grande árvore.  Aqui,  precisamos fazer uma difícil escolha:  permanecer seguros,  protegidos pela casca da semente,  ou enfrentar as dificuldades do lado de fora.  Entretanto,  na segurança da semente não existe vida.  A vida só é possível quando saímos e nos expomos às intempéries.  Em termos iniciáticos,  representa a saída da escuridão protetora da ignorância para a luz.


          Nas antigas tradições misteriosas de Wica,  todo o ciclo da Roda do Ano pode ser compreendido a partir dos processos interiores e psicológicos que vivemos, à medida que vamos caminhando e progredindo no aprendizado. É por essa razão,  que a Roda é chamada muitas vezes de Roda Iniciática.  Muitas pessoas acreditam que isso se deve ao fato de que devemos passar pelos oito Sabas para sentir as marés de poder do ano,  mas não se trata somente disso.  No simbolismo dos oito Sabás sazonais,  encontramos todas as relações possíveis com nosso próprio aprendizado e evolução,  nos identificando mais e mais com a Deusa e com o Deus.
          Para podermos operar com nossas energias no Círculo,  precisamos compreender perfeitamente esses fluxos de poder.  Unindo nosso poder pessoal às marés energéticas dos ciclos naturais,  estaremos promovendo nosso próprio crescimento interior e espiritual.
          Assim sendo,  sem entendermos completamente as marés de poder não poderemos operar magia em Wica.  Infelizmente, não posso me aprofundar mais no assunto,  mas o que aqui foi exposto já permite uma maior reflexão e compreensão da importância da Roda do Ano no processo de iniciação e posterior atuação como sacerdotes e sacerdotisas wicanos.

A Roda Óctupla


Este é um dos textos mais interessantes que já li a respeito deste tema, no qual muitas dúvidas podem ser sanadas.  Ele desmente as afirmações de que no Druidismo não se comemoram os oito festivais da roda, bem como mostra o erro grave que alguns pseudo-pagãos estão cometendo,  celebrando os festivais pelas datas do Hemisfério Norte aqui no sul.
Mario Martinez



“Desde o Iluminismo, a nossa cultura tem vindo a projetar a mensagem de que a vida é linear, de que nascemos, envelhecemos e morremos, e tudo acaba aí. A velha mensagem do caráter cíclico da vida, da vida enquanto ciclo e espiral (que a Humanidade já conhecia desde o início dos tempos e cujos símbolos foram gravados em pedras um pouco por todo o mundo) foi substituída há alguns anos atrás pelo símbolo da linha a direito: a mundo-visão masculina, linear, científica que, por deformação, venera o progresso e o cumprimento de objetivos acima da sabedoria e da compaixão. Um dos resultados provocados por esta mudança, na nossa consciência coletiva, de uma concepção circular da vida para uma sua concepção linear, foi o desligar das almas de muita gente em relação a uma das fontes espirituais mais nutritivas: o reino da Natureza.

Quando conheci o antigo Chefe Druida,  Nuinn, ele falou-me de um caminho que nunca cortara os seus laços com a Natureza, e que transmitia um sentimento de imanência do divino em todas as coisas.  Com efeito, quando junto todas as explicações que o meu professor me deu (muitas vezes num café que ficava por baixo do seu escritório de West Kensington, em Londres), consigo revê-lo junto de mim a falar-me do esquema das festas religiosas da seguinte forma:

‘Pensa na tua vida e nos respectivos acontecimentos. Coloca-os numa linha com o teu nascimento numa ponta e a morte na outra’,  diz ele, curvando-se sobre a mesa na minha direção, segurando numa faca para ajudar a ilustrar as suas palavras.  ‘E aqui tens uma linha isolada, que começa e termina no vazio. Existem outras linhas que podem estender-se em paralelo com a tua, colidir com ela ou atravessá-la, mas todas elas terminarão como começaram: com nada’.  Depois faz uma pausa e olha para mim encolhendo os ombros, acrescentando:  ‘Mas ambos sabemos que a vida não é bem assim: sabemos que a morte é seguida pelo renascer, tal como nos comprova o renascer da vida que ocorre na Primavera e, se tivermos sorte, vemos isso também quando procuramos no fundo da nossa memória. Por isso, a vida é assim’,  conclui, apontando para o prato,  ‘e não assim!’,  exclama, pousando a faca num gesto teatral, enquanto as pessoas das outras mesas começam a olhar para nós.

Depois, vai descrevendo círculos com o dedo no interior do prato, dizendo: ‘Nascemos, envelhecemos e morremos’,  e depois, continuando a descrever esses movimentos:  ‘Nascemos, depois vivemos a infância, depois a juventude, depois envelhecemos e mais tarde morremos’  e vai repetindo os círculos, até que de repente chega o garçom para nos servir.

‘O que é que está no centro deste círculo?  O quê ou quem é responsável por este movimento circular?’,  pergunta-me.  O meu pensamento fica em branco por alguns instantes.  ‘O que está no centro desta roda?  Quem ou o quê é responsável pelo seu girar?’

Nessa altura compreendo:  ‘A minha alma!  A minha verdadeira identidade, que perdura em todas as minhas vidas!’

‘Exatamente’,  responde ele, colocando um pouco de manteiga no centro do prato de espaguete, para assinalar o lugar da minha alma.

‘Agora esqueçamo-nos do indivíduo’,  prossegue,  ‘e olhemos para o mundo’. As estações do ano são claramente cíclicas: sucedem-se umas às outras, inexoravelmente. Por isso podemos dispô-las num círculo, o círculo do ano.  O mesmo acontece com os dias: cada dia nasce de madrugada, atinge o seu ponto alto ao meio-dia e depois começa a escurecer, dando lugar à noite, altura em que morre, renascendo depois na madrugada seguinte’.  Nessa altura, volta a fazer movimentos circulares com o dedo na orla do prato, desta vez com mais destreza para evitar os pedaços de comida.

‘O círculo do ano e o círculo do dia têm afinidades: o Inverno é como a morte da noite, quando tudo fica quieto. A Primavera é como o nascer do dia, quando os pássaros acordam e louvam o céu. O Verão é como o meio-dia, uma altura de calor máximo e em que o crescimento é maior.  E o Outono é como o fim da tarde, pois até mesmo as suas cores se parecem com as do pôr-do-sol. Temos assim os dois ciclos da Terra em sintonia. O quê ou quem pensas tu que controla o girar desta roda?’,  pergunta-me então, aproveitando finalmente a oportunidade para começar a comer e divertindo-se com o fato de também ter de desenvolver movimentos circulares para enrolar o espaguete no garfo (operação que, naturalmente, escolhe fazer no centro do prato).
Novamente, o meu pensamento fica em branco por instantes.  ‘O Deus e a Deusa?’,  inquiro.

‘Hummm...  Está bem, sim, a Divindade está no centro e é a causa de tudo. Mas aquilo que provoca especificamente o ciclo do dia e as estações do ano é o sol. É ele que faz girar a roda’.

Inclinando-se então para a frente, olha-me fixamente por um momento, antes de me colocar a pergunta seguinte:  ‘E que ligação julgas existir entre o teu ciclo’,  explica, apontando para o meu prato,  ‘e o ciclo da Terra?’,  conclui, apontando para o dele.

De início não consigo ver qualquer ligação: parecem-me estar os dois tão separados quanto os nossos pratos de espaguete. O Chefe Druida descreve então mais uma vez um círculo com os dedos na orla do seu prato.

‘Nascimento, morte, renascimento.  Solstício de Inverno,  a noite mais longa. Irá o Sol renascer?  Sim!  E aqui, do lado oposto,  no Solstício de Verão está na sua máxima força: é a altura do dia mais longo’.  Apontando para o rebordo do meu prato mais próximo de si, continua depois a explicação:  ‘Aqui nasces, encarnas como uma faísca de luz,  e aí desse outro lado do teu prato estás no auge da tua vida’.  Depois, agarra subitamente no frasco de pimenta, polvilhando ambos os lados do meu prato com um pouco desse condimento.  ‘Verão e Inverno’  diz,  colocando em seguida mais pimenta noutros dois lados opostos do meu prato, após o que explica:  ‘Primavera e Outono’.  E prossegue,  apontando para cada uma das marcas:  ‘Aqui vemos a forma como os ciclos da tua vida e os da Terra estão interligados.  A Primavera corresponde à época da tua infância, o Verão à fase mais jovem da idade adulta, o Outono à tua fase madura e o Inverno à tua morte.  E no centro da roda da tua vida está a tua alma,  tal como no centro da roda da Terra está o Sol’.

Procura na mesa algo mais que possa usar até que, triunfante, atira uma colherada de queijo parmesão para o centro do meu prato de espaguete, que já ia na metade.  ‘O Sol é a tua alma!  Agora talvez compreendas o porquê de o Sol ser tão reverenciado no Druidismo e na Wica’.

Nessa altura dou por mim a ter um daqueles momentos de extrema lucidez em que todas as peças parecem encaixar-se e fazer sentido embora, com um pensamento mais distraído, não conseguisse provavelmente aperceber-me de todas aquelas ligações.

‘É talvez por isso que certa vez alguém escreveu que os antigos druidas acreditavam que a origem das almas estava no Sol’,  prossegue o meu mestre. ‘Segundo esse autor, acreditavam também que, entre cada vida, as nossas almas iam para a Lua descansar até às nossas últimas três encarnações na Terra, em cujos intervalos podíamos descansar no centro do Sol, junto daqueles seres solares dourados que conduzem os destinos do nosso planeta’.


A Roda

Foi assim a minha introdução ao esquema óctuplo subjacente ao Druidismo e, na realidade,  a toda a tradição pagã ocidental, da qual o Druidismo é uma manifestação e a Wica outra. Tanto os druidas como os wicanos celebram as oito festas religiosas presentes neste esquema, tendo sido, na realidade,  Nuinn e Gerald Gardner que o introduziram  (bem como muitas das versões modernas dos rituais das respectivas festas)  no Paganismo durante as décadas de 1950 e 1960.

O esquema baseia-se na profunda e misteriosa ligação entre a fonte das nossas vidas individuais e a fonte da vida do Planeta, reconhecendo oito períodos particulares durante o ciclo anual que são muito significativos e marcados por observâncias especiais.

Desses períodos, quatro são de caráter astral (diretamente associados à posição do sol no céu), enquanto os outros quatro se encontram relacionados com a vida da terra e as fases da lua.  Se associarmos o sol ao princípio masculino e a lua ao feminino, verificaremos que este esquema oferece um conjunto equilibrado de ligações entre as observâncias correspondentes a um e a outro desses princípios. As de caráter solar são aquelas que a maioria das pessoas associa aos druidas da atualidade (com destaque para as cerimônias de solstício de Verão em Stonehenge). Nos solstícios, o sol é adorado no ponto da sua morte aparente, no dia em que começa o Inverno, e no auge da sua força, ao meio-dia, no primeiro dia do Verão (o mais longo de todo o ano). Nos equinócios, existe um equilíbrio entre dia e noite, sendo que, no da Primavera, a força do sol está crescendo e festejamos a época da sementeira e da preparação para as dádivas do Verão, enquanto que no de Outono, embora o dia e a noite tenham também a mesma duração,  a força do astro-rei está a decrescer e é altura de agradecermos as dádivas das colheitas e de nos prepararmos para a escuridão do Inverno.

Para além dessas quatro festas de caráter solar, existem ainda quatro datas do ano que eram e são consideradas sagradas. Trata-se das épocas associadas ao ciclo de vida do gado,  mais do que à agricultura.  Por não corresponderem a um momento específico da posição dos astros no céu,  o dia da sua celebração não é fixa, podendo variar de acordo com as circunstâncias locais. Atualmente, dada a nossa localização geográfica (e também os recentes efeitos do aquecimento global),  estas quatro celebrações sazonais podem ocorrer em alturas diversificadas, além de que quem vive o Hemisfério Sul tem de trocar as datas das oito festas,  já que as estações do ano nessas paragens são inversas às do Hemisfério Norte.

No Samhain, sacrificam-se as cabeças de gado para as quais não havia comida armazenada em quantidade suficiente para que pudessem sobreviver ao Inverno.  Após o abate, a sua carne era salgada e armazenada.  No Imbolc, assinalava-se o nascimento das crias dos ovinos.  Seguia-se o Beltane,  tempo de acasalamento e de passar o gado pelo meio de duas fogueiras, para sua purificação. Por fim, no Lughnasadh, havia uma ligação entre o ciclo do gado e o da agricultura:  começavam as colheitas e o armazenamento de alimentos para os humanos e forragem para os animais.

Em conjunto, ambos os festivais que acabamos de enumerar representam a nossa total interligação com a Terra,  a Lua e o Sol,  e os reinos animal e vegetal.

Quando analisarmos estas festas com maior detalhes nas páginas seguintes, veremos até que ponto a vida da nossa mente se encontra interligada com a do nosso corpo, bem como com a vida do nosso planeta e a do Sol e da Lua (uma vez que a época correspondente a cada uma das datas em questão assinala uma potente e notável conjugação de tempo e de espaço).

Olhando para o ciclo completo, começamos no Samhain.  Segundo muitos autores acreditavam até há algum tempo atrás, tratar-se-ia de uma festa que, antigamente, assinalava a passagem de ano celta.  Do ponto de vista histórico, neste momento essa análise parece estar incorreta, não deixando, contudo, aqueles que nela participam de sentir uma mudança no ciclo de vida do ano.  De alguma forma, experimenta-se uma sensação de morte deste, surgindo depois o seu renascimento apenas no solstício de Inverno, altura em que os especialistas  da  atualidade  acreditam  que  o  ano novo era, de fato, celebrado  (1).

O Samhain era um tempo de ausência de tempo:  a sociedade celta, tal como todas as sociedades antigas, era altamente estruturada e organizada, pelo que todos sabiam qual o seu lugar. Mas, para que essa ordem fosse psicologicamente confortável, tinha de haver também uma altura em que a ordem e a estruturação eram abolidas, um  tempo em que o caos podia reinar. E essa altura era o Samhain: o tempo era abolido durante os três dias em que durava a festa, e as pessoas cometiam atos que seriam impensáveis durante o resto do ano:  homens vestidos de mulheres e mulheres vestidas de homens, os portões das fazendas eram retirados das dobradiças e jogados ao chão, os cavalos de uma pessoa eram levados para os campos de outra e as crianças iam de porta em porta pedindo comida, o que explica o costume do Halloween de ameaçar com travessuras os donos das casas que não as oferecerem.

Não obstante, por detrás desta loucura aparente, existe um mistério mais profundo: os druidas acreditam que esta época do ano tem uma qualidade especial:  enquanto uma grande parte do mundo vegetal parece morrer com o aproximar da estação do Inverno (e também com o cair da noite, no caso dos dias),  o véu entre o nosso mundo e o dos nossos antepassados parece abrir-se e,  para aqueles que estiverem preparados, é possível viajar então em segurança para o “outro lado”.  O ritual druídico de Samhain diz assim respeito ao estabelecimento de contato com os espíritos daqueles que já partiram, que são vistos como fonte de aconselhamento e inspiração e não como fonte de receio e pavor.  A lua nova, época em que este satélite da Terra não é visível no céu, é a fase em que a festa é celebrada, dado que representa uma época em que a nossa vista de mortais necessita de ser obscurecida de modo a que o possamos ser para outros mundos.  Os mortos são homenageados e celebrados, não na qualidade de mortos mas sim como espíritos vivos de entes queridos e guardiães do saber primordial da tribo.

A festa seguinte deste ciclo é o solstício de Inverno.  Trata-se do tempo da morte e do renascimento.  O Sol parece estar abandonando-nos completamente quando  chega  a  noite mais longa.  Ligando  a  nossa  jornada  

(1)  Ver  R. Hutton,  Stations of the Sun – The History of the Ritual Year in Britain, Oxford University Press, 1996.
interior ao ciclo anual, as palavras desta cerimônia escritas por  Nuinn  dizem-
nos para  “Afastar tudo aquilo que impeça o aparecimento da luz”.  Na escuridão,   deitamos   fora   todos  os  detritos  que  trazemos  conosco  e  que
representam aquilo que tem estado a impedir o nosso desenvolvimento, acendendo depois um lampião com a ajuda de pedras de sílex, o qual é elevado sobre o bastão druídico, a leste.  O ano renasce e começa um novo ciclo, que atingirá o seu ponto alto na época do solstício de Verão, antes de regressar novamente ao local da morte e do renascimento.

Embora pela leitura da Bíblia possamos depreender que Jesus nasceu na Primavera, não terá sido por mero acaso que a Igreja dos primeiros tempos escolheu fazer coincidir os festejos do seu nascimento com a época do solstício de Inverno, pois trata-se, sem dúvida, de uma época em que a luz penetra na escuridão do mundo.  Vemos assim, novamente, a construção das tradições cristãs ser feita com base em crenças mais antigas.

Hoje em dia, muita da nossa cultura secularizada assinala apenas um ponto importante ao longo do ano, que é o período do Natal e Ano Novo.  Mas o Druidismo e a Wica tem oito, o que significa que, aproximadamente de seis em seis semanas, é-nos dada a oportunidade de quebrarmos a monotonia da vida quotidiana e honrar o conjunto de tempo e espaço.

A festa seguinte é o Imbolc.  Embora se possa pensar nesta data como algo que fica a meio do Inverno, esta festa constitui na realidade a primeira de três celebrações de caráter primaveril, dado que é a época do degelo e da limpeza dos galhos caídos e outros detritos trazidos pelas tempestades invernais. E um tempo em que sentimos o primeiro sinal da Primavera e em que as crias das ovelhas nascem.  A correspondente cristã a esta festa é a Candelária.  Ao longo de vários anos, sucessivos Papas tentaram acabar com as procissões de velas acesas que percorriam as ruas de Roma nessa época. Mas, ao verem que não conseguiam acabar com este costume pagão, sugeriram à população que levasse as suas velas para o interior das igrejas, onde passariam a ser benzidas pelos padres.

O tempo avança e,  pouco depois, chegamos ao equinócio de Primavera, em que o dia e a noite duram o mesmo tempo e no qual a força da luz aumenta diariamente. Situado no centro das três festas primaveris, assinala os sinais mais reconhecíveis daquela estação do ano, nomeadamente, o aparecimento das flores e o início das sementeiras com mais tempo a elas dedicado. Como ponto de desenvolvimento psicológico das nossas vidas, assinala o período final da infância (cujo início corresponde ao Imbolc, digamos que mais ou menos até os sete anos de idade).  Estamos na Primavera das nossas vidas, e as sementes que plantamos na época de nossa infância do Imbolc irão, idealmente, florir a partir do tempo da adolescência do Beltane como capacidades e poderes que nos ajudarão a viver as nossas vidas com arte e sucesso.

Beltane assinala então o tempo da nossa adolescência e início da idade adulta. A Primavera está no auge, e acende-se pares de fogueiras, pelo meio das quais se conduz o gado após este ter passado muito tempo fechado durante os meses de Inverno e início da Primavera.  Aqueles que querem ter filhos saltam essas mesmas fogueiras.  Quando eu era jovem, a Ordem festejava o Beltane no Tor de Glastonbury. A união entre o masculino e o feminino encontra-se simbolicamente representada naquela paisagem, através do poço de  Chalice Well (princípio feminino) e da elevação do Tor (princípio masculino).  Deparamo-nos com o mesmo tema nos festejos do Dia de Maio na Inglaterra, em que a dança à volta do Mastro de Maio festeja a fertilidade da terra, sugerindo-nos estarmos perante uma reminiscência das danças rituais em círculos que poderão ter tido lugar nos círculos de pedras nos tempos antigos, nesta estação do ano em que a vitalidade está crescendo.

E assim chegamos à altura do solstício de Verão.  É a época do dia mais longo, quando a luz aparece na sua força máxima, e também aquela em que os druidas realizam sua cerimônia mais complexa. Começando à meia-noite do dia do solstício. É feita uma vigília ao longo de toda a noite, com os participantes sentados ao redor da fogueira.

Seis semanas depois, chega o Lughnasadh, que assinala o início do período de colheitas. O feno já foi colhido e é chegada a época de ceifar o trigo e o centeio.  Antigamente, esta era uma época de reunião, de concursos, jogos e casamentos. Os casamentos celebrados nessa época poderiam ser anulados um ano depois, novamente na época desta festa, o que permitia ao casal dispor de um “período experimental” adequado.  Em alguns locais, uma roda em chamas era atirada por uma colina abaixo, simbolizando a descida do ano em direção ao Inverno.  A versão cristã desta festa chama-se,  na Grã-Bretanha,  Lammas (nome que deriva de blafmasse, ou “massa de pão”,  dado que eram feitas oferendas de pão feito com o trigo novo).

O equinócio de Outono constitui-se na segunda das festas ligadas às colheitas e assinalando o final desse período.  Mais uma vez, o dia e a noite voltam a estar equilibrados, como acontece nos equinócio de Primavera, mas rapidamente as noites passarão a ser cada vez maiores e o Inverno não tarda a chegar”.