quarta-feira, 5 de outubro de 2011

ITAN: HISTÓRIAS DO SISTEMA ORACULAR JEJE-NAGÔ


ITAN: HISTÓRIAS DO SISTEMA ORACULAR JEJE-NAGÔ
Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé Quando os negros foram trazidos da África para o Brasil pelo sistema de escravidão, consigo trouxeram também um conhecimento amplo que sustentava suas relações entre si, e possibilitava uma compreensão do universo e da vida totalmente diferente da cultura da Europa. O sistema de exploração de braço escravo fez com que os negros oriundos da África Ocidental, principalmente do Golfo de Benin, terminassem por aportar na América. Por mais discriminados e isolados de seus conterrâneos, fundamentos de sua cultura sobreviveram também no Brasil. Isso se deve em grande parte ao fato de eles não separarem a vida cotidiana das práticas de re-ligação com o divino. Entre os inúmeros fenômenos das culturas importadas da África, o sistema oracular, através do qual se consultava as divindades, era de importância fundamental, uma vez que a convivência diuturna entre criadores e criaturas era fenômeno evidente entre os africanos.

Um dos sistemas da consulta ao oráculo era o jogo de Ifá, constituído de 16 sinais (odu) básicos, com várias histórias (itan) que configuravam cada um deles. As histórias, porém, encerravam princípios de ética e moral, através dos quais se estruturavam e se sustentavam as relações entre os humanos e os divinos e também dos humanos entre si. Assim, pessoas, animais, e até plantas se configuravam verdadeiros personagens, portadores de qualidades e defeitos, nas histórias que serviam de base à leitura e interpretação do odu. Tendo em vista que o conteúdo de cada odu abarca inúmeras histórias, o sistema exigia uma memória excelente, além da capacidade em atinar qual das histórias fazia sentido em relação à pergunta feita pelo consulente. Daí porque os sacerdotes de Ifá, normalmente, em África, tinham uma vida de certo recolhimento e dedicavam sua existência aos estudos de tal conhecimento.

No Brasil, por força do sistema escravagista que se negou estupidamente a reconhecer os valores das várias culturas africanas, os sacerdotes do culto a Ifá, os babalaôs, não sobreviveram. Em conseqüência, o jogo-de-búzios se popularizou, substituindo o jogo do opelé de Ifá. Ocorre, porém, que o jogo-de-búzios é oriundo do jogo do opelé e conserva a prática da leitura dos odu. Assim, criou-se uma possibilidade de sobrevivência do sistema oracular e suas histórias elucidativas. Um outro fator a considerar também é que, por força do contexto cultural construído no Brasil colônia, também o sistema de origem européia adotava as histórias infanto-juvenis para transmitirem fundamentos de ética e de moral tão necessários em qualquer sociedade humana. Por isso mesmo, muitas histórias do sistema oracular passaram a fazer parte do repertório contado nas varandas da casa-grande, na roda do terreiro das fazendas ao luar, nas senzalas. Evidentemente, um sem número delas se perdeu com o passar do tempo, enquanto outras se firmaram e constituem atualmente parte integrante do cabedal cultural do Brasil. E as histórias², principalmente aquelas em que os personagens são apenas os humanos, os contos, as narrativas tão bem se integraram ao patrimônio brasileiro que, para a maioria, já não se guarda mais a memória de sua origem.
¹ Publicado na Revista Kàwé, Ilhéus: Editus, n.° 1, 2.000, p. 15-19.
² Na edição da Revista Kàwé, constavam dois itan. Agora, acrescento mais dez, para uma cobertura mais ampla das diferentes tipologias dos itan, em que os personagens são humanos, ou bichos, ou seres divinos, ou plantas, podendo até aparecerem juntos

OXALÁ

OXALÁ
Orixá da paz e do amor, considerado pai da criação. Oxalá tem ojeriza às cores preto e vermelho. Não suporta sal, azeite de dendê e bebidas alcoólicas. Prefere pombos e igbin, espécie de caracol também conhecido por boi-de-Oxalá. Seus devotos lhe ofertam grande quantidade de milho-branco cozido. Gosta do silêncio e da quietude. Não suporta vozerio, alarido, nem sujeira. Seu dia consagrado é a sexta-feira, quando os adeptos do candomblé, geralmente, passam o dia vestidos de branco. A ele, o povo-de-santo dedica o mais profundo respeito e eterna reverência, pois o considera a luz do mundo. Em qualquer ritual dos terreiros, Oxalá é o último a ser saudado. Após sua palavra, nada mais pode ser dito. Tem duas manifestações: uma, de jovem guerreiro e outra, de velho alquebrado. Quando jovem, ele é OXAGUIÃ. Traja-se de branco ou prateado, carrega escudo, espada e uma mão de pilão. Quando velho, ele é OXALUFÃ. Traja-se de branco, dobrado ao meio, claudicante, apoiado em um longo cajado ritual, o opaxorô

Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

IEMANJÁ


IEMANJÁ
É a grande-mãe dos mares e oceanos. De seios fartos e acolhedores, é considerada mãe dos orixás e, portanto, dos homens também. Gosta de adornos femininos, flores e perfumes. Veste-se de azul-claro e branco ou prateado. Carrega em uma das mãos uma adaga curta e, na outra, um espelho, o abebé, símbolo de seu real poder. A ela são dedicadas festas públicas que congregam multidões em várias cidades costeiras do Brasil, quando lhes são oferecidos dezenas de balaios repletos de objetos do seu agrado. Seu dia preferido é o sábado. Gosta de galinhas e cabras brancas, ovelhas e patas.Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

EUÁ


EUÁ
Esposa de Obaluaiê e, por isso também, é tratada com muita reverência. Preside as águas e tem poderes sobre os mortos, atributos que aprendeu com o esposo. Uma de suas moradas é o arco-íris e, por isso, é tida como a cobra fêmea de Oxum-marê. Seus filhos obedecem a sérias restrições, a exemplo de não comer galinha, animal que ela detesta. Veste-se de vermelho e dourado e traz na mão uma espécie de cabaça presa a uma haste, enfeitada com palha-da-costa. Gosta de acarajé e de feijão-fradinho enfeitado com rodelas de ovos.Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

OBÁ


OBÁ
Grande Guerreira, uma das três esposas de Xangô. Numa querela com Oxum, para obter a preferência do esposo, cortou a orelha esquerda e, com ela, temperou um amalá para Xangô. Passou a esconder a mutilação com a mão esquerda, ou com o escudo, ou com um turbante. É destemida, mas é ressentida e gosta de ouvir por trás das cortinas. Veste-se de vermelho, branco e dourado. Carrega espada e escudo. Gosta de acarajé, aberém, feijão fradinho, cabras, galinhas e coquéns. Recebe culto às quartas-feiras e seus filhos são uma raridade.
Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé
Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

OXUM


OXUM
Senhora das águas doces, dos rios, cachoeiras e fontes. Rege a riqueza, o ouro, o luxo, a vaidade, a beleza e a grandeza. Preside a maternidade e se constitui uma das mais conhecidas imagens arquetípicas da grande-mãe dos nagôs. Veste-se de amarelo em suas várias tonalidades, mas não dispensa o dourado. É uma das esposas de Xangô. Enfeita-se com muitos adereços, muito exigente e cheia de melindres. Usa um leque em forma de espelho, o abebé, no qual se mira constantemente. Seu dia é o sábado e gosta de galinhas amarelas, cabras, coquéns e omolocô, espécie de prato à base de feijão-fradinho. Seu culto é originário do povo ijexá.
Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

XANGÔ


XANGÔ
Titular da justiça, do fogo, do trovão e das pedreiras. Vaidoso e enfeitado, é marido de várias esposas. Prefere não lidar com os temas ligados à morte e distribui a justiça do alto de seu trono, um pilão emborcado. Muito cultuado, seu nome, em alguns Estados do Nordeste do Brasil, se confunde com o próprio candomblé. Seu dia é a quarta-feira. Suas cores são o vermelho e branco. Sua insígnia é uma machadinha com duas lâminas. Gosta de carneiro, cágado e amalá, espécie de caruru, feito à base de quiabos, temperado com dendê, cebola ralada, camarão seco e pimenta da costa. Gosta de se enfeitar, mas lança fogo pela boca, quando fala.
Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé


Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

OSSÃE


OSSÃE
Senhor do segredo das folhas, habita nos lugares mais escondidos da selva. Exímio curador, reservado, silencioso, detesta falatório, alarido e confusão. Vê o mundo sem ser visto, através da ramagem das plantas, e quando se revela, mostra apenas uma banda sua. Sem ele, não há folhas e sem folhas, não há orixá. Antes de qualquer ritual nos terreiros, as folhas são selecionadas por espécie e por finalidade e utilizadas para banhos, defumações e sacudimentos. Ossãe recebe culto às quintas-feiras, suas cores são o verde em todas as variações, combinado com o rosa-claro. Sua insígnia é um fecho de sete varetas de ferro, presas a uma haste, tendo ao centro um pássaro estilizado. Recebe oferendas à base de milho, bodes e galos. Gosta de fumo de rolo, uma de suas principais oferendas.
Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé  Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

OBALUAIÊ


OBALUAIÊ
Dono da Terra, temível guerreiro, a ele são dirigidos cultos de profundo respeito e reverência. Seu nome não pode ser pronunciado à toa. É o mesmo Omolu em sua personalidade jovem. Filho de Nanã, a mais velha das grandes-mães, Obaluaiê é defensor contra a peste e todas as doenças contagiosas. Está sempre coberto por um capuz de palha-da-costa, para que seu rosto nunca seja visto, ocultando as deformidades causadas por caranguejos, no seu tempo de criança. Seu dia é segunda-feira e suas cores são o preto e branco. Recebe galos, bodes e pipocas de milho-alho, recobertas com fatias de coco. Sua insígnia é o xaxará, espécie de cetro confeccionado com palitos de dendezeiro, palha-da-costa e búzios.
Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

OMOLU


OMOLU
É o mesmo Obaluaiê em sua personalidade velha. É alquebrado e também só aparece coberto por um capuz de palha-da-costa. É o médico ferido dos pobres, de profundo pendor à caridade pública. É temido, respeitado e reverenciado em todos os terreiros de todas as origens, no Brasil. Tal qual Obaluaiê, seu culto é originário do jeje, assimilado pelos nagôs. Suas oferendas e dia de culto são os mesmos dedicados a Obaluaiê. Suas cores são vermelho, preto e branco, combinadas. Quando executa sua dança ritual, Omolu limpa as mazelas do mundo com oxaxará.
Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

LOGUM-EDÉ


LOGUM-EDÉ
Filho de Oxum e Oxóssi, carrega os atributos de seus pais. Por isso mesmo, insígnias, cores, dias de culto e preferências de oferendas são duplas, isto é, as mesmas oferecidas a Oxum e a Oxóssi. Durante seis meses, reside na mata. Outros seis, nas águas doces. Metade dele é Oxossi; a outra metade é Oxum. Detesta as cores vermelho e marrom e carrega consigo muitas ojerizas e proibições. Considerado e tratado como um príncipe, é adolescente e cheio de vontades e delicadezas. Não suporta mandar, tem que se adivinhar o que ele deseja.
Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de CaribéImagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

IANSÃ


IANSÃ
Guerreira, destemida, senhora dos ventos, das tempestades, dos raios e da trovoada. É uma das esposas de Xangô. Comanda os astros e os eguns, isto é, os espíritos dos mortos. De temperamento tempestuoso, todos temem a sua ira. Veste-se de vermelho vivo e carrega uma espada com a qual guerreia e comanda os raios. Inquieta e dada a todo tipo de mudanças, ela é o próprio Fogo em sua feição feminina. Seus filhos lhe oferecem acarajé, abará, cabras e galinhas vermelhas. Odeia abóbora e jaca-mole. Seu dia é quarta-feira e é cultuada junto com Xangô.
Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

IBÊJI


IBÊJI
Filhos de Iansã, são gêmeos idênticos, tutelares da fartura e da abundância. Os devotos do candomblé lhes oferecem um farto banquete anual, cuja principal característica é a fartura e a variedade de alimentos da culinária afro-brasileira. Considerados como bênçãos divinas duplicadas, são crianças alegres, brincalhonas e fazedoras de milagres. São curadores, portadores da felicidade e do bem-estar geral. Suas cores são variadas. Normalmente, recebe culto em qualquer dia da semana, preferencialmente às quartas-feiras e aos sábados.
Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

NANÃ


NANÃ

É a mais velha das grandes-mães, senhora da chuva e da lama, matéria primordial da criação. Ela varre as mazelas do mundo com o ibiri, seu cajado ritual. Considerada a avó dos humanos, ela é mãe de Omolu, de Obaluaiê e de Oxum-marê. Seu culto tem origem jeje, assimilado pelos nagôs. Seu dia é a terça-feira e suas cores o lilás ou o azul e branco. No seu ritual, não se usa ferramentas de metal. Recebe oferendas de patas, cabras e galinhas. Ela é a intérprete de Obaluaiê, porque ele só entende a fala dos humanos ao contrário. Por isso, seus devotos fazem pedidos a Nanã, para que ela, por sua vez, peça a Obaluaiê.


Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé





Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

OXUM-MARÊ


OXUM-MARÊ
Orixá do arco-íris, pai da riqueza e preside o bom tempo. Seu culto é de origem jeje, assimilado pelo povo nagô e trazido para o Brasil. É ele quem circunda a Terra, sob forma de uma serpente encantada, para evitar a desintegração do planeta. Durante um tempo, ele é o arco-íris e está nas alturas. Num outro tempo, ele é a serpente encantada e se arrasta sobre a terra. Suas cores são as mesmas do arco-íris e recebe oferendas duplas, à base de milho branco e animais sacrificados como pombos, carneiros, galinhas, coquéns, tudo em casal. Dois dias são reservados a seu culto: as terças-feiras ou os sábados.
Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé



Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

OXÓSSI


OXÓSSI
Senhor das matas, caçador por excelência, patrono da caça, da busca, da procura, da pesquisa. É o grande provedor, matador da “serpente encantada”. Destemido e resoluto, fiel e dono da carne, Oxóssi é o grande teimoso e conquistador. É proibido de comer mel e detesta cajarana. Seu dia é a quinta-feira. Suas cores são o verde, variando para o azul-turquesa, nas casas de origem ketu. Come galo avermelhado e milho cozido com fatias de coco. Gosta de todo tipo de caça. Suas insígnias são o arco-e-flecha e o eirukerê, espécie de espanador feito de rabo de boi, símbolo da realeza no candomblé.Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé


Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

OGUM


OGUM
Orixá guerreiro, patrono da agricultura, ferreiro e senhor dos caminhos. Irmão de Exu e Oxóssi, é solitário e mora nas matas. Ele ensinou aos humanos as técnicas da agricultura e como forjar ferramentas. Seu dia é terça-feira. Suas cores são o azul profundo, variando para o verde, nas casas de culto de origem ketu. Gosta de galo vermelho, inhame assado e regado com mel, feijão-preto, além de pipocas e farofa de azeite de dendê. Sua insígnia é uma penca de ferramentas em miniatura. É o senhor da guerra, da luta, da demanda e da peleja
Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candomblé da Bahia" de Caribé

EXU


EXU
Mensageiro entre os humanos e os demais orixás. Sem Exu, nada se faz. Seus domínios são as encruzilhadas, onde ele está sempre pronto para levar recados e petições. Gosta de cachaça, farofa de azeite de dendê e de galo preto. Trocista, gozador e pregador de peças, seu gênio fez com que fiéis de outros credos imaginassem que ele é uma entidade demoníaca. Por conta disso, o culto aos orixá no Brasil também tem sofrido perseguições sem conta. Sua insígnia é o obé-fará, espécie de tridente de ferro. Suas cores são o vermelho e preto e o dia de seu culto é a segunda-feira
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Orixás

Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candmblé da Bahia" de Caribé O sistema de escravidão trouxe, para o Brasil, crianças, adolescentes, mulheres e homens africanos. O tráfico se estabeleceu desde os inícios da colonização portuguesa, até o século XIX. Os escravos foram trazidos à força das mais diversas partes da África, e a senzala serviu de caldeirão, onde se misturaram crenças, línguas e etnias africanas das mais diversas.

Os negros escravos, desde a senzala, tiveram na religião o espaço da resistência. Até mesmo em pleno vigor do regime escravocrata, um modelo de culto foi-se delineando, a partir de núcleos religiosos formados por negros libertos, de origem nagô. Com o tempo, esse modelo foi-se definindo, até tornar-se hegemônico e o culto aos orixás espalhou-se pelo Brasil.

Imagens retiradas do livro "Os Deuses Africanos no Candmblé da Bahia" de Caribé Os espaços construídos para o culto aos orixá obedeciam a um imaginário nagô, preservados a custo de lutas, sofrimentos e perseguições. As casas de culto terminaram por ficar conhecidas como terreiros e a prática religiosa, como candomblé.

Além da etnia nagô, grupos de outras origens se firmaram. Os nagôs, também chamados iorubas, no entanto, resistiram às diversas influências externas. Os usos e costumes preservados nos terreiros revelam a herança africana, que faz parte de um conjunto de traços de identidade do povo-de-santo nos candomblés do Brasil.

Os orixá, divindades africanas a quem se dirige o culto, também são tomados como arquétipos da personalidade humana, servindo de base para processos terapêuticos, entre os fiéis, adeptos e simpatizantes do candomblé, nos quartos de consulta e nos rituais de iniciação.

CALENDÁRIO LITÚRGICO E OBRIGAÇÕES RELIGIOSAS

CALENDÁRIO LITÚRGICO E OBRIGAÇÕES RELIGIOSAS

São cultuados no Ilê os orixás da tradição nagô no Brasil, sendo o culto a Oxalá de natureza cotidiana e perene. Além dos rituais públicos e privados para Oxalá, acontecem ainda festividades para Oxum e Oxóssi. A data mais solene do terreiro é a dos três rituais consecutivos para Oxalá, que ocorrem anualmente, no mês de janeiro: as Águas de Oxalá, a Procissão do Alá e o Pilão de Oxalá.

Os rituais para Oxum ocorrem anualmente, na época da lua cheia do mês de fevereiro e para Oxóssi, no mês de abril. As solenidades públicas para os demais orixás são realizadas de acordo com o calendário geral do Ilê.

Além de receber culto de modo cotidiano e regular, Oxalá, o Orixá Patrono do Terreiro, é sempre louvado às sextas-feiras, ao pôr do sol, no barracão das solenidades. Mensalmente, na primeira sexta-feira, a louvação a Oxalá acontece com oferta do ebô e acompanhamento da orquestra sagrada. No ritual do ebô de Oxalá, todas as pessoas presentes devem estar trajando vestimentas brancas.

É proibido o uso de outra cor que não seja o branco por parte de quem penetre no terreiro às sextas-feiras e durante as três festas consagradas a Oxalá, inclusive os visitantes. Em qualquer ocasião, não é permitido o uso da cor preta