quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O FOFOQUEIRO


O FOFOQUEIRO
Ninguém mais sabia o que fazer: havia uma fuxicada terrível, pois tudo o que se falava no palácio se espalhava pela cidade. Oxalá, o mais-velho, irritado com a situação, ordenou que se apurasse tudo, tim-tim por tim-tim. Principalmente que se observasse os freqüentadores mais assíduos, aqueles que tinham trânsito livre. Ninguém deveria deixar de ser observado. De repente, ficou bem visto que os mais assíduos freqüentadores eram dois: Carneiro e Martim-Pescador. Mas havia uma tremenda diferença entre eles, pois enquanto Carneiro era calado, reservado, manso, sempre de vistas baixas, Martim-Pescador era o cão por dentro do mato. Se metia nas conversas, vivia de entra-e-sai, dando notícia de tudo. Parecia uma tempestade.
Então foram dizer a Oxalá que já sabiam quem era o falador. Quando anunciaram que era Martim-Pescador, Iansã, a Mãe dos Ventos, agitada que só ela, tomou a palavra e pediu tempo para provar a inocência de seu protegido. Oxalá deu o tempo e Iansã saiu apressada como um raio. Daí, ela chamou Martim-Pescador e Carneiro e disse assim:

− Vai ter uma festa no palácio de Oxalá...

Interrompeu o que estava dizendo, pôs as mãos na cintura e percorreu os dois de alto a baixo, com olhares de autoridade, reprovação e cobrança. Depois, continuou:

 − Oxalá vai premiar a quem aparecer com a melhor fantasia vermelha. Mas isso é segredo. Ninguém deve saber disso. Finjam que não sabem de nada e bico calado. Olhem lá, viu!  Principalmente o senhor, Seu Martim-Pescador, com sua língua de trapo....

Pois bem. No dia da festa, foi chegando bicho, foi chegando gente, foi chegando encantado e o salão ficou repleto. E aí todo mundo viu: somente Carneiro e seus parentes estavam fantasiados de vermelho. Oxalá tem ojeriza a cores fortes e já estava sabendo de tudo, porque Iansã tinha contado a ele. Mandou expulsar Carneiro e sua gente daquela festa. E todo mundo ficou sabendo: era o manso e silencioso Carneiro o fofoqueiro do palácio. Apenas Martim-Pescador ficou morrendo de pena do Carneiro.

Mas é isso: Ninguém julgue o bom por bom, nem o mau por mau.
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