quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A RESPOSTA DO CORAÇÃO


A RESPOSTA DO CORAÇÃO
Kirina estava bem do seu, arrumando os acaçás no tabuleiro, quando um barulho de passos apressados lhe chamou a atenção. E seu cabelo ficou arrepiado com o que estava vendo: um batalhão caminhava em sua direção. Essas coisas, soldado, exército, farda, sempre mexiam com sua natureza. O pensamento deu mil voltas e ela ficou assim, meio atoleimada, sem atinar na razão da presença de tantos soldados.

Diante do tabuleiro, por ordem do comandante, os soldados pararam. Eta pedaço de homem, Kirina viu. Alto, de bom corpo, olhos de gato, voz de touro. Kirina sentiu outro arrepio mais forte ainda e parecia que o chão tremia debaixo de seus pés.

— Bom dia, Dona!

— Bom dia Ioiô! Em que posso lhe servir?

— Meu batalhão está morrendo de fome. Estamos em diligência de guerra e há dois dias a gente não come nada. A Dona pode dar alguma coisa a gente para comer?

Kirina sentiu um baque no coração. A semana não tinha sido lá essas coisas, a vendagem foi pouca. Ela estava justamente contando com alguns trocados que entrassem hoje. E agora estava ali aquele comandante a lhe pedir seus quitutes de graça.... E lá se foi o pensamento de Kirina fazendo voltas. Viu os filhos que ficaram em casa, esperando as providências, a mãe paralítica que dependia dela... Mas seu coração bradou lá dentro, repleto de sentimento, mandando compartir. Quando conseguiu abrir a boca, Kirina não fez por menos:

—Olhe, Ioiô... Aranha vive do que tece, mas é Deus e Ogum que deixam a aranha tecer. Mesmo, hoje por ti, amanhã por mim... O que Deus dá é pra todo mundo e Ogum não vai me faltar no dia de amanhã. Pode mandar os outros moços se servir...

O comandante deu a ordem e ficou parado, ao lado de Kirina, enquanto os soldados comiam. Num instante, o tabuleiro ficou vazio. Kirina ainda ofereceu água, que ela sempre trazia num barril. Quando tudo acabou, os soldados se afastaram e o comandante, todo faceiro e sorridente, disse:

— Bom... Dinheiro, eu não trago. Mas tenho aqui umas coisas ajuntadas na guerra. Chamou um dos soldados e deu uma ordem. O ordenança, então, trouxe um enorme saco de couro e entregou ao comandante. O oficial entregou o saco a Kirina e disse:

— Abra. É seu...

Meio desconfiada, Kirina obedeceu. E quando abriu o saco, quase dá um ataque. O surrão estava apinhado de coisas de valor, moedas, coroas, ferramentas, um tesouro, enfim. E ela ficou um tempo enorme, entretida, examinando as coisas que estavam dentro do surrão. Quando levantou as vistas, o batalhão não estava mais ali. Aí, Kirina caiu em si: aquilo era coisa de Ogum, só podia ter sido ele... De longe, o comandante apreciava Kirina sorrindo e, virando-se para seus soldados, afirmou: Não se vence batalha apenas com espada na mão. Também se vence com as armas do coração.
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