quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O OVO ANUNCIADO


O OVO ANUNCIADO
A galinha estava assanhada. Queria descobrir um meio de valorizar seu produto. Sem saber o que fazer, mal chegava a madrugada e ela descia do poleiro, agoniada, nervosa, ciscando tudo que encontrava. Uma comadre já bem idosa, vendo aquele eterno entra-e-sai da galinha, deu um conselho:

− Olhe, por que a senhora não vai fazer uma consulta? Senhora, se cuide... Em vez de ficar nessa agonia, vá a quem pode lhe ajudar a encontrar as respostas...

A galinha, então, depois de muito pensar, venceu a indecisão e foi fazer a consulta. E lhe foi aconselhado botar a boca no mundo. E assim ela fez: ao botar um ovo, cacarejava a não mais poder. Todo mundo ficava sabendo, de imediato, quando a galinha desovava e queria obter o que ela produzia. Enquanto isso, a pata, quieta em seu canto, a tudo espiava, calada. E resolveu também fazer uma consulta, mas nunca se soube o que lhe foi revelado. Sabe como é: esse povo, assim, calado, quieto no canto, jamais deixa que se saiba o que está realmente acontecendo. Mas deixemos isso pra lá.

Acontece, porém, que surgiu um mal de asma nas crianças da aldeia. As mães, aflitas, gastavam ovos e mais ovos de galinha para curar os filhos, mas a doença não cedia. Uma das moradoras, já em desespero com o sofrimento do seu filho, resolveu, então, experimentar um ovo de pata como remédio. Usou, de início, apenas um ovo, até mesmo por medo de que aquilo, realmente, não servisse pra nada. Sabe como é: esse negócio, assim, não anunciado, ninguém conhece direito... Aquela mãe bateu um ovo de pata com mel de abelhas e sumo de mastruz. Mas não é que a asma cedeu?! A mãe bem sucedida contou a outra mãe que contou a outra mãe e, assim, foi um gastar de ovo de pata como nunca se viu antes.

As crianças ficaram curadas. As mães, no entanto, ficaram muito intrigadas com aquilo. Por que a pata nunca tinha dito isso a ninguém?  Seria por pura ruindade? Por trás daquele silêncio tinha de haver uma explicação... A vizinha do pé da ladeira, a mais bisbilhoteira de todas, tomou a iniciativa e foi à casa da pata, assim, como quem não quer nada e querendo. Chegou lá, conversou, conversou e conversou. E na volta, todo mundo ficou sabendo do que a pata tinha dito: O que é bom nem sempre é anunciado

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